quinta-feira, 29 de junho de 2017

TEXTO BASE PARA AVALIAÇÃO ORAL - OS PRÉ-SOCRÁTICOS II


       OS PRÉ-SOCRÁTICOS :PARTE

              * HERÁCLITO: FOGO E DEVIR
   Em Éfeso, outra cidade jônica, desenvolveu-se um pensamento distinto e original. Isso se deve a Heráclito ( 535 -475) , estudioso da natureza e preocupado com a arché.
       Assim como os pensadores de Mileto, Heráclito observava que a realidade é dinâmica e que a vida está em constante transformação. Mas, diferentemente dos milésimos que buscavam na mudança aquilo que permanece, decidiu concentrar sua reflexão sobre o que muda. Assim o filosofo dizia que tudo flui, nada persiste nem permanece o mesmo. O ser não é mais que o vir a ser. “Tu não podes descer duas vezes no mesmo rio, porque novas águas correm sobre ti.”
                Heráclito também observou, como seus predecessores, tinham uma atuação dos opostos na natureza (frio e calor, seco e úmido etc..) mas radicalizou essa observação , conferindo papel essencial ao conflito em sua cosmologia. Desenvolve, assim, uma visão da realidade profundamente egoística (do grego agonistikós) relativo a luta. Pois para ele as forças do ele o fluxo constante da vida seria impulsionado justamente pela luta de forças contrarias: a ordem e a desordem, o bem e mal, belo e o feio, construção e desconstrução, a justiça e a injustiça, racional e o irracional, a alegria e a tristeza etc.
                Daí sua famosa afirmação de que a “luta (guerra) é a mãe, rainha e princípio de todas as coisas. É pela luta da forças opostas que mundo se modifica e evolui. Por essa razão, Heráclito imaginou que, se devia haver um elemento primordial da natureza, este teria A ser fogo, governado o constante movimento dos seres com chamas vivas e eternas.
                A medida desse acender e apagar do fogo seria determinada pelo logos, o pensamento, a razão que Heráclito era a razão criadora e unificadora das tensões opostas, a razão-discurso do filósofo: “É sábio escutar não a mim, mas a meu discurso.” Dessa forma ele resgatava a unidade, mas uma unidade descortinada pela mente atenta, desperta, em vigília.          
                Pela importância que deu ao movimento, a escola heraclitiana pensamento é chamada de mobilista. Apesar de não ter sido muito bem – visto entre seus contemporâneos e estudiosos posteriores, Heráclito é considerado um dos mais destacados filósofos pré-socráticos e o primeiro grande representante do pensamento dialético. Teria inspirado filósofos como Hegel e Heidegger, entre outros.
·         PARMÊNIDES :O SER
                Parmênides entendia que o equívoco das pessoas e dos demais pensadores era conceder demasiada importância aos dados fornecidos pelos sentidos. Descartes diria algo parecido mais de mil anos depois. Embora também percebesse pela via sensorial a mudança e o movimento no mundo. Parmênides achava contraditório buscar a essência ( a arché) naquilo que não é essencial , buscar a permanência  naquilo que não permanece ( a mudança e o movimento) ou supor que aquilo que é permanente pudesse converter-se em algo impermanente.
                Assim, Parmênides optou para escutar o que lhe dizia a razão, e não os sentidos, que o faziam sentir a mudança, e proclamou que existe o ser e não é concebível sua não existência. Em suas palavras: O ser é o não ser não é “Tentemos compreender melhor essa frase, aparentemente óbvia:
·         O SER É , a primeira oração expressa a ideia de que o ser  ( ou aquilo que é ) é eternamente , pois o ser constitui , para ele, a substancia  permanente das coisas. Portanto, o ser é de maneira imutável e imóvel e é o único que existe cada com nenhum elemento natural, sensível mas ao mesmo tempo, equivalente a toda corporeidade , com tudo o que existe ,pois o ser é  UNO PLENO, CONTÍNUO E ABSOLUTO.
·         O NÃO SER NÃO É -  A segunda oração traz a ideia de que o não ser ( a negação do ser) não é não tem ser , substancia , essência . Portanto é nada, não existe. Essa é uma conclusão lógica, pois se o ser é tudo, o não ser só pode não existir. Para Parmênides, o não ser se identificaria com a mudança ( o devir ) pois mudar é justamente não ser mais aquilo que era , nem ser ainda algo que é.
Em vista dessa formulação, Parmênides é considerado o primeiro filosofo a expor o princípio de identidade, ( A= A) e de não contradição ( se A=A, é impossível ao mesmo tempo e mesma .relação, A = não A) , cuja a argumentação seria depois mais bem desenvolvida por Aristóteles.
        Em seu poema filosófico sobre a natureza, Parmênides expôs que dois caminhos para a compreensão da realidade tem sido trilhados. O primeiro é o da verdade, da razão, da essência O segundo é o da opinião, da aparência enganosa, que lelé considerava a via de Heráclito.
        Quando a realidade é pensada pelo caminho da aparência, tudo se confunde em movimento pluralidade e devir. De acordo com Parmênides, essa via precisaria ser evitada para não termos de concluir que “o ser  e o não ser são e não são a mesma coisa, o que seria um contrassenso , uma formulação ilógica. Considera-se que foi a partir dessa discussão sobre os contrários, sobre o ser e o não ser, que se iniciaram as reflexões da lógica e da ontologia, quando esses dois campos de investigação filosófica ainda estavam intimamente relacionados.
·          EMPÉDOCLES:  ( 490 – 430 a.C) – OS QUADROS ELEMENTOS.   
Empédocles esforçou-se por conciliar as concepções de Parmênides e Heráclito. Aceitava de Parmênides a racionalidade que afirma a existência e permanência do ser ( o ser é ) mas procurava encontrar uma maneira de tornar racionais  também os dados captados por nossos sentidos.
Defendeu, assim, a existência de quatro elementos primordiais, que constituem as raízes de todas as coisas percebidas: o fogo, a terra, a água e o ar. Esses elementos seria movidos e misturados de diferentes maneiras em função de dois princípios universais opostos:
_ AMOR ( filia em grego) , responsável pela força de atração e união e pelo movimento de crescente harmonização das coisas;
_ ÓDIO (NEIKOS, EM GREGO) , responsável pela força de repulsão e desagregação e pelo movimento de decadência , dissolução e separação das coisas.
               Para Empédocles, todas as coisas existentes na realidade estão submetidas as forças cíclicas desses dois princípios.



·         DEMÓCRITO – (460 – 370 a.C) O ÁTOMO
 Destacou-se na busca pela arché a resposta concebida por Demócrito, um contemporâneo de Sócrates de Atenas. Apesar de ser até uma novo que este, sua reflexão inscreveu-se principalmente dentro da tradição pré-socráticos. Ele foi o responsável junto com seu mestre Leucipo, pelo desenvolvimento de uma doutrina que ficou conhecida pelo nome de atomismo.
        Demócrito concordava com necessidade da plenitude e unidade do ser (como afirmava Parmênides). Mas não aceitava que não ser, (o movimento, a multiplicidade) fosse uma ilusão. Para ele, a experiência do movimento era justamente a prova da existência de um não ser, que em sua concepção seria, como veremos, o vazio.
        Aproximando-se da concepção físico- química e moderna da realidade, sua doutrina dizia que todas as coisas que formam a realidade são constituídas por   partículas invisíveis (por serem muito minúsculas) e indivisíveis. Demócrito denominou-as, portanto de ATOMOS. Palavra de origem grega que significa “não divisível” (a negação, átomo parte, divisão) coo o ser parmenídico, o átomo democrítico seria uno, pleno e eterno.
        No entanto, para o filósofo, toda a realidade é composta também do vazio, que representa a ausência de ser ( o não ser ) . É o vazio que, segundo ele, torna possível o movimento do ser., que é o movimento dos Átomos, segundo a teoria

Atomista. Sem espaço vazio, nenhuma coisa poderia se mover, argumentava o filósofo.
        Os átomos seriam homogêneos entre si, isto é teriam o mesmo ser, a mesma natureza fundamental. No entanto, seria infinitos em números por sua figura ou configuração. Nesse sentido, seriam heterogêneos e nunca se converteriam uns nos outros, razão pela qual o atomismo pode ser considerado uma doutrina pluralista.
        Há também um dualismo em sua concepção pelo fato de afirmar que toda a realidade é composta de átomo e de vazio. Mas sabemos que o vazio era entendido por Demócrito como não ser de modo que não era substancia, não constituindo, portanto, uma arché em seu plano. Demócrito também entendeu que os átomos estão em constante movimento espiralado, chocando-se uns com os outros ao acaso. Nesses entrechoques uns com ou outros ao choques, podem atrair-se e aglomerar-se ou repelir-se e separar-se . Quando os átomos se aglomeram (sempre como certo vazio entre eles para que realizem sua movimentação eterna), formam-se os distintos corpos com suas qualidades específicas, que nossos sentidos percebem.
        As distintas e infinitas composições dos átomos eram explicadas por Demócrito de acordo com três fatores básicos:
_ FIGURA -  A forma geométrica de cada átomo que compõe o corpo, bem como sua grandeza e seu peso. Assim, átomo de figura A ≠ átomo de figura B. O fogo por exemplo, seria uma aglomerado de átomos de mesma figura, todos redondos pequenos e leves, de acordo com Demócrito.
_ ORDEM A sequência espacial dos átomos de mesma figura que compões um corpo. Assim AB ≠ BA
_ POSIÇÃO – A situação de cada átomo em relação as coordenadas espaciais, B ≠ Ω.

        Os pensamentos e a alma eram explicados de maneira semelhante, pela aglomeração de átomo mais leves e sutis. E o nascimento e a morte não existiriam no sentido de uma geração ou corrupção de matéria (isto é, transformações qualitativas); seriam apenas o resultado da união ou separação de átomos, e nesse manteriam sempre os mesmos, eternos. Daí a afirmação de Demócrito: “nada nasce do nada, nada retorna ao nada” tudo tem uma causa. E os átomos seriam a causa última do mundo.
        Por essa razão, o atomismo passou a história como uma teoria mecanicista, pois explica tudo a partir dos átomos (matéria) e seus. No movimentos no mecanicismo, a sucessão dos acontecimentos é necessária, no sentido de que segue uma lei natural que a determina, mas ocorre ao acaso, no sentido de que não tem um projeto ou finalidade (não que não tenha uma causa) É como o mecanicismo de uma máquina, que não define nada apenas funciona de acordo com as leis físicas. Assim devia pensar Demócrito quando disse que tudo o que existe no universo nasce do acaso ou da necessidade.
       
       


               
               



                
       


               
               




                

domingo, 21 de maio de 2017

TEXTO BASE PARA O ESTUDO DIRIGIDO 1º BIM 1º ANO ( A FILOSOFIA)

CENTRO EDUCACIONAL 06 – GAMA/DF
TEXTO BASE PARA O ESTUDO DIRIGIDO COM CONSULTA 
PROF: DENYS F. DA COSTA
DISCIPLINA: FILOSOFIA                 SÉRIE : 1º               

A FILOSOFIA
“...Que atividade caracteriza a Filosofia?”
Aqui vou tomar um rumo muito “merleaupontyano”, de considerar a Filosofia muito a partir de Merleau-Ponty, que é a minha.
Se nós considerarmos que a Filosofia é, em primeiro lugar, um trabalho para transformar uma experiência imediatamente vivida numa experiência compreendida e, portanto, a Filosofia é um trabalho para transformar uma experiência em um saber a respeito dessa mesma experiência, o campo da Filosofia é vastíssimo. E o campo de todas as experiências possíveis...
Então, num primeiro momento, vou considerar a Filosofia como essa reflexão exercida pela experiência, com a experiência e sobre a experiência, mas realizada enquanto uma experiência de reflexão. O que eu quero dizer é que não se trata de considerar que de um lado existem experiências, todas elas desprovidas de seu próprio saber, e, do outro algo que se chama reflexão que, de fora, operaria sobre a experiência e a converteria numa experiência verdadeira. Essa ideia de Filosofia é, aliás, a ideia contra a qual Marleau-Ponty se coloca, porque ela está vinculada à suposição de que existe um sujeito do conhecimento que vem de fora da experiência para decifrar a experiência e dizer qual é o sentido que a experiência tem... “Não é isso que aqui estou chamando de Filosofia”.
A Filosofia é a capacidade de fazer com que a reflexão sobre a experiência seja, ela própria, enquanto reflexão, uma experiência. Não algo que vem de fora como uma consciência que se deposita sobre uma experiência significativa. Abolindo, assim, a ideia de urna reflexão que viesse de fora para transformar uma experiência em saber. Esse movimento é interior à própria experiência; ou ela se realiza como uma experiência de reflexão a seu próprio respeito ou ela não se realiza como Filosofia. Esse movimento em que a experiência da reflexão seria o lugar da Filosofia, ao ser colocado como um trabalho, significa duas coisas.
Em primeiro lugar, significa que a experiência da reflexão, enquanto trabalho do pensamento, vai negar a experiência imediatamente vivida como uma experiência imediata e vai mostrar que essa experiência está carregada de sentido, possui uma interioridade, possui o seu tempo próprio, possui significações e que cada experiência é plena enquanto experiência. E que essa plenitude é a reflexão que a experiência realiza  sobre si própria. Esse trabalho é então, um trabalho de conquista da plenitude de sentido e de tempo que uma experiência qualquer possui. É um resgate, portanto, da própria experiência.
Em segundo lugar, é o conhecimento da origem dessa experiência. Quer dizer, o que diferencia a experiência imediata e a reflexão dessa experiência sobre si mesma, é que essa reflexão conduz ao conhecimento da origem de uma experiência e do sentido que essa experiência tem a partir de sua origem

 (Marilena Chauí, texto extraído da conferência Filosofia. e CULTURA, pronunciada na USU, em
Mito e filosofia:(continuidade e ruptura)

Texto 02

Já podemos observar a diferença entre pensamento mítico e filosofia nascente: os filósofos divergem entre si e a filosofia se distingue da tradição mítica oferecendo uma pluralidade de explicações possíveis, uma atitude característica do filósofo. Além disso, a física jônica é a expressão do pensamento filosófico racional e abstrato, ao recorrer a argumentos e não a explicações sobrenaturais. Por exemplo, Hesíodo relata o princípio do mundo (cosmogonia) e o nascimento dos deuses (teogonia) a partir da sua gênese ou origem no tempo, enquanto as cosmologias dos pré-socráticos são baseadas em explicações racionais. Assim justificamos a perspectiva comumente aceita da ruptura entre mythos e logos (razão).
No entanto, para estudiosos como o inglês Cornford, apesar das diferenças, o pensamento filosófico nascente ainda apresenta vinculações com o mito. Por exemplo, Hesíodo relata na Teogonia como Gaia (Terra) gera sozinha, por segregação, o Céu e o Mar; depois, a união da Terra com o Céu, presidida por Eros (princípio de coesão do Universo), resulta na geração dos deuses. Ora, examinando os textos dos filósofos jônicos, Cornford descobre neles a mesma estrutura de pensamento existente no relato mítico: os jônios afirmam que, de um estado inicial de indistinção, separam-se pares opostos (quente e frio, seco e úmido) que vão gerar os seres naturais (o céu de fogo, o ar frio, a terra seca, o mar úmido). Para os filósofos, a ordem do mundo deriva de forças opostas que se equilibram reciprocamente, e a união dos opostos explica os fenômenos meteóricos, as estações do ano, o nascimento e a morte de tudo que vive.
Portanto, na passagem do mito à razão, há continuidade no uso comum de certas estruturas de explicação. Na concepção de Cornford não existe “uma imaculada concepção da razão”, pois o aparecimento da filosofia é um fato histórico enraizado no passado.
Outra observação interessante sobre esse período de transição pode ser feita a partir da produção literária de tragédias, nos séculos VI e V a.C., cujos autores mais conhecidos foram Ésquilo, Sófocles e Eurípedes. Embora o conteúdo das peças teatrais fosse retirado dos mitos, o tratamento dado aos conflitos denota urna consciência trágica que representa a ambiguidade pela qual o destino é questionado, ainda que no final a vontade dos deuses acabe se cumprindo. O esforço humano “na encruzilhada da decisão, às voltas com as consequências de seus atos”, como diz Vernant, representa o logos nascente.
Conclusão

Embora existam aspectos de continuidade entre mito e filosofia, o pensamento filosófico é algo muito diferente do mito, por resultar de uma ruptura quanto à atitude diante do saber recebido. Enquanto o mito é uma narrativa cujo conteúdo não se questiona, a filosofia problematiza e, portanto, convida à discussão. No mito a inteligibilidade é dada, na filosofia ela é procurada. A filosofia rejeita o sobrenatural, a interferência de agentes divinos na explicação dos fenômenos. Ainda mais: a filosofia busca a coerência interna, a definição rigorosa dos conceitos, organiza—se em doutrina e surge, portanto, corno pensamento abstrato.
Na nova abordagem do real caracterizada pelo pensamento filosófico, podemos ainda notar a vinculação entre filosofia e ciência. O próprio teor das preocupações dos primeiros filósofos é de natureza cosmológica, de maneira que, na Grécia Antiga, o filósofo é também o intelectual do saber científico. Só no século XVII as ciências encontram seu próprio método e separam-se da filosofia, formando as chamadas ciências particulares.





TEXTO 03

FILOSOFIA E PENSAMENTO
A Filosofia não é uma ciência, uma teoria ou disciplina do conhecimento, tal como se entendem hoje em dias estes termos. Ao contrário. Toda ciência, teoria ou disciplina do conhecimento é que são, de alguma maneira, dependentes da Filosofia, quer o reconheçam ou não.
A Filosofia também não constitui uma ideologia, concepção de vida ou visão de mundo. Mas não vale a inversão. Pois toda ideologia, concepção de vida ou visão de mundo não podem prescindir da Filosofia. Foi o que, de certa feita, reconheceu Bertrand Russel, com as seguintes palavras: ''Um empirismo lógico, sem compromisso, é logicamente insustentável.''         
Mas, então, que é a Filosofia se não for ciência, teoria ou disciplina do conhecimento, se não for ideologia, concepção de vida ou visão de mundo? Antes de responder, pensemos o que nos torna a pergunta não somente possível como, sobretudo, imperiosa.
A pergunta supõe aceitas, sem mais, muitas coisas. Supõe, por exemplo, que toda Filosofia seja ou, ao menos, pretenda ser um exercício de conhecimento. Supõe, também, que, além de conhecimento, já não sobre nada para a Filosofia ser. Supõe, igualmente, que tudo que é não possa deixar de ser alguma coisa, um quê, e, por isso, pergunta ''que é''. Supõe que toda a pretensão de conhecimento termina sempre com a produção de um conhecimento objetivo e, então, é ciência, ou, com a produção de uma ilusão transcendental ou empírica, e, então, é ideologia. Supõe, por fim, que todas as época tenham concepção de vida e visão de mundo, e não somente a época moderna.
Como se pode ver, não são poucas as suposições que sustentam as perguntas. Mas, e se todas as suposições estiverem a serviço da ditadura da razão, seu raciocínio e sua racionalidade, muito bons, sem dúvida, para conhecer objetos, mas imprestáveis para pensar a realidade do real nas realizações históricas do homem? Neste caso, com que cara ficamos nós, ao perguntar: mas, então, que é a Filosofia se não for nem conhecimento, nem ideologia, nem concepção de vida, nem visão de mundo? Será que ainda ficaremos com alguma cara, quando só nos restar a carranca intransigente da razão e sua ditadura?
Agora, que percebemos os limites da pergunta, poderemos tentar respondê-la.
A Filosofia é uma experiência de Pensamento. Mas não é a única. Outras experiências são o mito e a mística. Uma outra é a experiência dos deuses e do extraordinário, seja ou não religiosa. Ainda outra é a Poesia e a Arte. Ainda outra é a Pólis e a Politéia. A última, por ser no fundo, a primeira experiência de Pensamento, é a vida e a morte, Eros e Thanatos.
Hoje somos pós-modernos. Vivemos os progressos da técnica e os avanços da ciência. Nestas condições, por que nos é tão importante ainda aprender a pensar no nível dos pensadores? Não seria muito mais vantajoso empenhar logo todas as forças e concentrar todo o esforço em desenvolver a técnica e promover o crescimento da ciência, dedicando-se apenas à Filosofia Analítica da Ciência e às Ciências Cognitivas? Que utilidade poderá trazer para nós, ''filhos do carbono e do amoníaco'', ''joguetes nas mão do caos e dos fractais'', ''aranhas da w.w.w''? Para que aprender a pensar, como os pensadores, se os muitos chats já nos fazem repetir os slogans já pensados das ideologias e os big-brothers Brasil nos inculcam sub-repticiamente que o ideal é a exclusão e não a inclusão e a distribuição?
O Pensamento é um passado tão vigente que sempre está por vir. Qualquer esforço da Filosofia não deixa de ser um esforço do Pensamento pelo Pensamento. E por quê? Porque nenhum esforço filosófico pode dispensar a força de futuro do pensamento do passado. Por isso também toda Filosofia vive de pensar a História da Filosofia. É que se tornou transparente, sobretudo, desde Hegel. A Filosofia inclui sempre uma Filosofia da História. Na introdução de suas Preleções de história da filosofia, Hegel pergunta: como é possível que a Filosofia, que busca a verdade, possa, em sua História, desdobrar-se numa multiplicidade de tantas filosofias? De fato, o balcão da história nos mostra, à saciedade, que onde um filósofo diz ''sim'', outro diz ''não'' e vice-versa. Por isso se costuma repetir que é próprio dos filósofos se contradizerem uns aos outros e do filósofo se contradizer a si mesmo.
A todas estas arremetidas da razão contra o Pensamento na Filosofia a resposta de Hegel é dialética: a verdade não é parte. As partes são passagens de que necessita a verdade para chegar a si mesma no todo. A verdade é o todo. Por ser e para ser o todo, a verdade possui a tendência de se desenrolar nas peripécias de uma dialética, formando um fluxo de crescimento, o curso da História. E não somente Hegel que o percebeu. Heráclito já sabia. Platão também, Aristóteles também, Santo Agostinho também, Joaquim de Fiore também, Kant também, Schelling também, Nietzsche também, Heidegger também. Mas é um saber raro. Só os grandes pensadores o possuem. Pois o possuem na medida em que transformam na grandeza de outros endereços de Pensamento e de novos caminhos de pensar. O destino do Pensamento, em qualquer endereço ou caminho é mantê-lo vivo da forma mais pura, na forma de um contínuo questionamento. Por isso os filósofos nascem e morrem como filósofos, num diálogo ininterrupto de Pensamento com seus antecessores e com seus sucessores. Somente morrendo é que um filósofo e uma filosofia se tornam contemporâneos do Pensamento. É o sentido da famosa definição platônica da Filosofia: melete thanatou, empenho da morte. Agora talvez se tenha tornado um pouco mais clara a resposta de que, em distinção de toda ciência, teoria ou disciplina do conhecimento, de toda ideologia, concepção de vida ou visão de mundo, a Filosofia é apenas uma experiência do Pensamento em todos os empenhos de conhecer e sentir, de fazer e agir, em todos os adventos de ser, não ser e vir as ser dos homens em peregrinação histórica.
EMANUEL CANEIRO LEÃO ( FILOSOFO / FONTE JORNAL DO BRASIL
TEXTO 04
A JUVENTUDE E A FILOSOFIA


Você deve estar acostumado a ser visto pelos adultos como um “incômodo” “. E isso não deixa de ser verdade. O adolescente passa por uma verdadeira revolução em sua vida, é uma pessoa em movimento, seu corpo se transforma, suas idéias se transformam, seus sentimentos se transforma... Muitos dos que são mais velhos já estão acomodados na vida, e não desejam - na maioria das vezes – mudanças que perturbem sua situação. Sua situação. E é por isso que o jovem incomoda. Ele representa o novo, que traz em si o antigo do mundo” pronto “em que nasce lutando contra o velho que já passou por esse processo de ser o novo. O jovem é a força do movimento reagindo contra toda a acomodação e, portanto”, incomoda “os acomodados - que se esquecem de que já passaram por isso”.
            Mesmo na escola, você deve viver um pouco dessa realidade, sentido na pele a situação. Mas talvez com a filosofia seja diferente, talvez com ela você se sinta à vontade. É porque a filosofia é uma jovem de quase 2.700 anos de idade. Desde que surgiu na Grécia, no século VII a.C, a filosofia pode ser caracterizada como uma situação de incômodo, de inconformismo. Ela apareceu porque alguma pessoa - os primeiros filósofos – estava insatisfeita com as explicações sobre a realidade que existiam na época.
            Elas se sentiam espantadas diante da complexidade do mundo, e queriam fugir das explicações simplistas que eram dadas. A filosofia surgiu como uma interrogação constante sobre a realidade, e um descontentamento com as respostas oferecidas. Isso fez dela uma eterna revolução, um movimento de construção do saber. Note: a filosofia é a sabedoria, mas um movimento em sua direção, sempre uma busca. E, como nunca deixou de ser busca, a filosofia não envelheceu; continua hoje tão jovem quanto era sua remota origem.
            Se a juventude é vista pelos acomodados como um “incômodo”, o mesmo acontece com a filosofia. No século V a.C. Sócrates, já idoso, foi condenado à morte pelo tribunal popular de Atenas. Diziam que ele não acreditava nos deuses da cidade e corrompia a juventude; mas na verdade ele incomodava demais aqueles que se sentiam confortáveis em sua situação. Ao longo de sua história, a filosofia seguiu sendo incômodo, causando desconforto nas pessoas, mas também possibilitando a emergência de novos saberes, de novas perspectivas e possibilidades.
            Não espere da filosofia, portanto, que resolva sua situação de ‘incômodo “. O que ela pode fazer é deixar você ainda mais incomodado. Mas ajudará você a perceber que o incômodo não é ruim, ao contrário, é o inconformismo que move o mundo, permite que cada um construa sua vida buscando seus próprios caminhos”.
            A filosofia não tem uma “receita mágica” para resolver os problemas da vida de ninguém, mas pode ser um instrumento interessante para entendermos melhores as situações pelas quais passamos, possibilitando que façamos escolhas mais bem pensadas. Daqui para frente, você certamente poderá encontrar muitas outras companhias, filosóficas ou não, que ajudem você a ser sempre jovem, incomodando-se com o mundo e consigo mesmo, construindo uma vida criativa e singular.



segunda-feira, 8 de maio de 2017

TEXTO BASE PARA PROVA ORAL 1º ANO ( CONJECTURA SOBRE O MITO

CENTRO EDUCACIONAL 06/GAMA DF
TEXTO BASE PARA AVALIAÇÃO ORAL  DO  BIMESTRE.
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CONJECTURAS SOBRE O MITO
            Embora sejamos naturalmente propensos ao filosofar, uma vez que a razão é potencialidade inerente a todo ser humano, a forma filosófica de ver o mundo não é a nossa primeira atitude diante da realidade. Por isso, para compreender a origem existencial da Filosofia, de como acontece o processo de filosofar na existência pessoal de cada um de nós  e para compreendermos processo histórico de nascimento da filosofia, é preciso compreender o que a antecede, tento na história e na cultura circundante, quanto na sua própria existência pessoal. Pense, por exemplo, em uma criança. Ela tem em si a potencialidade para a filosofia, mas essa potencialidade jamais irá despertar se antes não houver um significativo tempo e cultivo de outro saber que, vindo antes, prepara o filosofar. Assim, será na formação da consciência mítica que se inicia o caminho que poderá levar a consciência filosófica.

·         A IDENTIDADE DO MITO

O MITO É UM SISTEMA DE COMUNICAÇÃO, É UMA MENSAGEM. EIS POR QUE NÃO PODERIA SER UM CONCEITO OU UMA IDEIA: ELE É UM MODO DE SIGNIFICAÇÃO, UMA FORMA(...) JÁ QUE O MITO É UMA FALA, TUDO PODE CONSTRUIR UM MITO, DESDE QUE SEJA SUSCETÍVEL DE SER JULGADO POR UM DISCURSO. O MITO NÃO SE DEFINE POLO OBJETO DE SUA MENSAGEM, MAS PELA MANEIRA COMO A PROFERE. O MITO TEM LIMITES FORMAIS, MAS NÃO SUBSTANCIAIS.
BARTHES, Roland

            A primeira forma de apreensão do real é uma espécie de intuição compreensiva. Diante da infinita grandeza e mistério dos fenômenos naturais ( sol, chuva, trovão raio , etc.) e diante das situações limites , representadas pelos mistérios da doença e da morte, o ser humano encontra-se perplexo , inseguro.
Em nossa existência, encontramo–nos inicialmente, marcados pelo espanto, pela admiração, pela dúvida, pela incerteza. Em decorrência desse estado, diante do mistério marcado por profunda insegurança pessoal, recorremos, primeiramente, à narrativa mítica, que passa a ser uma mensagem.
            Assim, a linguagem mítica é um constituinte do ser humano que se situa em um plano diferente da razão argumentativa.
            Na narrativa mística, encontramos segurança para a nossa perturbação inicial. Sem saber das origens, vivendo uma experiência de impotência ignorância inicias, atribuímos a origem de toda as coisas a foça dos deuses ou de Deus supremo. Dessa forma a narrativa mítica apaziguá o espírito inquieto. E da cultura Sendo a primeira forma de consciência do ser humano, a consciência mítica começa a ordenar e organizar o mundo. Assim a formação dos mitos obedece uma necessidade inerente do ser humano e da cultura, considerando os limites da razão e dada a essencial incompletude de nossa condição humana, também afetada pela dinâmica da emoções, da efetividade e descrenças. Portanto, nós não somos somente, nem sequer somos em primeiro lugar, seres racionais. Nossa primeira natureza é irracional e intuitiva que nascerá a narrativa mítica.
           

·         AS FUNÇÕES DO MITO.
Normalmente, o mito vem definido como advindo da função que exerce. Nesse sentido o mito é uma intuição compreensiva da realidade, uma forma espontânea de situarmos no mundo, expressando a capacidade inicial de compreende-lo. Por isso, as raízes do mito estão na razão, mas na realidade vivida, pré-reflexiva das emoções e da afetividade. Apoiada em uma lógica intuitiva, imaginativa, que surge a partir de imagem e é fortalecida pelo afeto explicamos a realidade concreta, conferindo significado e ordem a um mundo aparentemente caótico e desorganizado.
            Sendo narrativa pronunciada para ouvintes que a recebem como verdadeira, o mito traz a marca da fé e da confiança. Assim, a verdade do mito está relacionada a confiança na pessoa do narrador, a sua autoridade, Acredita-se que o poeta narrador seja um escolhido dos deuses, iluminado pelos deuses que lhe inspiraram sobre a origem dos acontecimentos passa e lhe passaram a responsabilidade de transmitir essa verdade para as gerações presentes e futuras. Sua palavra é sagrada, porque vem de uma revelação divina. Dessa forma, o mito se apresenta incontestável, inquestionável, marcado pela ausência da percepção de contradições.
            Sob a foram de relatos fáceis de entender os são transmitidos de geração em geração, porque assim os ancestrais o prescreveram. Os mitos cumprem uma importante função social, ao reforçarem a coesão, alimentando a identidade de grupo, a identidade comunitária. Por isso o cenário do mito é sempre a vida comunitária que o alimenta. Enquanto o mito mantiver a força de identificação dos indivíduos e da comunidade, ele permanecerá muito vivo. É a força do mito consiste precisamente no fato de a narrativa se referir a própria história da comunidade, as suas origens.
            Essa narrativa mítica fazem parte da tradição cultural de um povo. Por isso, não são produto de um autor específico de um indivíduo isolado que, em determinado momento, sentou-se e as escreveu. Se considerarmos as principais fontes da mitologia grega, chegaremos a Homero e Hesíodo. A existência histórica de Homero é muito questionada. Estudos modernos afirma que Homero é um nome coletivo e não um indivíduo histórico, particular. Homero é conhecido como o autor da Ilíada e Odisseia, por volta do século IX a.C.
            Os mitos antigos ou primordiais exerciam uma função não só de explicar o mundo e as relações humanas, mas de transmitir um ideal de educação, essencial para a formação dos jovens. Através das narrativas míticas, as gerações mais velhas ensinavam as gerações mais novas como eles deveriam ser para se tornarem excelentes. OS heróis e deuses transmitiam modelos exemplares de conduta para serem seguidos. Esse modelo estava presente na areté ( virtude) de cada heróis.
            Considerando que os mitos primitivos são narrativas sobre a origem das realidades, origem que se encontra nas alianças ou rivalidades entre os deuses, segue um exemplo de como o mito narra a origem do mundo e de tudo o que existe. Em primeiro lugar, o mito localiza a origem das realidades nas relações amorosas  entre os deuses.

Texto retirado do livro filosofia por uma Inteligência da Complexidade de Celito Meier 

sábado, 11 de março de 2017

LINK PARA O LIVRO O DONO DO PODER

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segunda-feira, 14 de novembro de 2016

TEXTO BASE PARA TESTE ( TEORIA DA BELEZA DE PLATÃO E ARISTÓTELES)

TEORIA DA BELEZA DE PLATÃO E ARISTÓTELES

1.0. O MUNDO DAS IDÉIAS PURAS
Estudar a beleza é tocar, de maneira geral, em todos os problemas, por exemplo: o fato de nós determos sobre o problema de sua natureza suscita, logo a questão do saber se ela pode ou não ser abordada filosoficamente.
Fato que como já vimos, os irracionais negam em seu nome da liberdade, principalmente num campo como o da Arte, onde imperam os dons individuais sempre desiguais e imprevisíveis, tentaremos, porém aqui, dentro essência da beleza, servindo-nos, para isso da contribuição que os pensadores trouxeram a partir do pensamento ocidental.
Como acontece ordinariamente no campo desse pensamento, vamos encontrar as primeiras indicações a respeito da Beleza na obra de Platão, que nos fala pela boca de Sócrates, homem real que foi personagem Platônico em que se transformou para Platão, dentro de sua grandiosa visão idealista do mundo e do homem, a Beleza de um ser material qualquer depende da maior ou menor comunicação que tal possui com as belezas absolutas, que subsiste, pura, imutável e eterna no mundo supra-sensível das idéias.
A teoria Platônica da Beleza e da arte depende, assim de sua visão geral do mundo.
Para usar palavras de Ortega Y Gasset, Platão via o universo como dividido em dois mundos, o mundo em ruínas e o mundo em forma, O nosso mundo das essências, das idéias puras, que acabamos de nos referir. E o mundo eterno e imutável que existe acima do nosso e que chama o daqui para o seu seio. Nesse mundo, a verdade, a beleza e o Bem são essências superiores, legadas diretamente ao ser.
Cada ser do nosso mundo em ruínas, tem no outro modelo os padrões, ou arquétipos, que se situam entre os seres sensíveis e as essências superiores da verdade, do bem e da Beleza.
2.0. A REMINISCÊNCIA
Os críticos do platonismo já tem acentuado a pouca precisão das idéias platônicas sobre os arquétipos, algo que flutua entre o sensível e o espiritual. Mas Platão tem ainda, outros pontos fundamentais em seu pensamento.
A alma é invencivelmente atraída pela beleza, pois sua pátria natural é o mundo das essências puras, a beleza absoluta de natureza divina, por isso sente invencível saudade dela vivendo, como vive, aqui em desterro permanente. Por isso, segundo Platão, a alma sabe tudo e se nós não a acompanharmos nesse conhecimento é porque a nossa parte material é grosseira faz com que nós esqueçamos da maior parte daquilo que a alma sabe por ter contemplado, maior parte daquilo que a alma sabe, por ter contemplado, já a verdade, a beleza e o bem absoluto.
Existem almas mais aptas do que outras a se recordar das verdades e belezas contempladas anteriormente. Assim, que se dedica a Beleza, não a recria na arte, quem se dedica a, não a descobre, pelo conhecimento tanto num caso como noutro, o que acontece é que a alma recorda-se das formas e verdades contempladas no mundo das essências, antes que a alma unisse ao corpo.
3.0. O BANQUETE e o FEDRO
Os diálogos platônicos que mais se referem à Beleza são: o Banquete e o Fedro. No primeiro livro, o chamado discurso de Sócrates, explica quase que de modo definitivo a teoria platônica da Beleza.
Valendo-se do famoso mito da Parelha, Platão aconselha a seus discípulos o caminho místico como único apto a elevar os homens das coisas sensíveis e grosseiras até o mundo das idéias. Para Platão. O caminho da alma que se quer elevar é o amor, isto porque os seres humanos eram, a princípio, andrógino, macho e fêmeo ao mesmo tempo, separados em duas metades, cada alma vive procurando encontrar a sua parelha.
Mas somente os indivíduos inferiores ficam satisfeitos com a forma mais primitiva de amor, apaixonando-se e desejando um belo corpo. Se ele é, porém, um homem superior, em breve descobre a beleza existente naquele belo corpo e irmã da beleza de outro corpo belo, o que o leva a conclusão de que a beleza de todos os corpos é uma só.
Vem daí, como conseqüência, destruição da forma egoísta e grosseira de amor que prende a um só corpo, o amado      passará a amar todos os belos corpos, ou para ser mais preciso, passa a amar não os corpos, mas a beleza existente neles, contemplada desinteressadamente.
4.0. O CAMINHO MÍSTICO
O estágio de aperfeiçoamento seguinte será aquele em que se considera a beleza da fama superior à beleza do corpo. O amador descobre que a beleza corpórea é sujeita a ruína e a decadência, enquanto a beleza moral resiste ao passar do tempo.
Então, ele contemplará a beleza que existe nos costumes e nas leis morais, notando que a Beleza está relacionada com todas as coisas e considerando, então a beleza corpórea como pouco digna de estima.
5.0. A BELEZA ABSOLUTA
No estágio de que estamos falando, o amante toma-se um prisioneiro voluntário do imenso oceano da beleza. Com o tempo, purificando-se sempre no sentido do mais alto e do divino, tendo o espírito fortificado e enriquecido por esse verdadeiro acesso, por essa disciplina amorosa da contemplação, estará atingindo o estágio final que é possível ainda aqui na terra.
6.0. A REMINISCÊNCIA E O MENON
Assim, parece lícito afirmar que para Platão, a beleza causava, antes demais nada enlevo, prazer, arrebatamento, deleitação; E se alguma dúvida houvesse, seria antes sobre o caráter de deleitação, também emprestado no texto platônico citado, a sabedoria, a verdade, as quais segundo suas palavras, "despertaria amor veemente", como se fosse também uma espécie de bem fazer usufruído e não somente conhecido. Isto leva a Maritain a afirmar que "a sabedoria é amada por sua beleza, enquanto que a beleza é amada por si mesma", distinguindo ele que a "beleza é essencialmente deleitável, por isso, por sua própria essência, enquanto beleza move o desejo e produz o amor que a verdade como tal faz somente iluminar".
Obs.: Texto extraído do livro: "Iniciação a Estética, de Ariano Suassuna"


TEXTO 02
CONCEPÇÃO PLATÔNICA DA ARTE
Para Platão, a arte se situa no plano mais baixo do conhecimento pois é imitação das coisas sensíveis, elas próprias imitações imperfeitas das essências inteligíveis ou idéias.
Segundo este raciocínio na sua obra A República, Platão ao elaborar a teoria sobre a cidade perfeita. Ele exclui os poetas, pintores e escultores porque imitavam as coisas sensíveis e oferecem uma imagem desrespeitosa dos deuses, tomados pelas paixões humanas, porém, coloca a dança e a música como disciplinas fundamentais na formação do corpo e da alma, isto é do caráter das crianças e dos adolescentes. Como para Platão, gramática, estratégia, aritmética, geometria e astronomia, são artes, seu ensino é considerado indispensável na formação dos guerreiros e acrescentadas da arte dialética, na formação dos Reis Filósofos.
Platão, também faz uma análise sobre as artes e a técnica. Partindo do pressuposto que a arte tem um sentido de ordenação e habilidade, podendo ser considerada num sentido amplo, um conjunto de regras para atingir uma atividade humana qualquer. Assim podemos falar em arte médica, arte política, arte bélica, retórica e poética. Todas em seus determinados campos são expressões de arte.
Platão não distinguia a arte das ciências, nem da filosofia, uma vez que elas são atividades humanas e regradas. A distinção platônica feita entre dois tipos de arte ou técnica: as justificativas, isto é dedicada apenas ao conhecimento, as dispositivas, voltadas para a direção de uma atividade, com base no conhecimento de suas regras.
        A BELEZA É O PRÓPRIO BEM
Inicialmente, o belo é entendido como manifestação do bem. Para Platão, a idéia de beleza é a mais evidente e aquela que mais atrai o homem. Pôr meio dela, do encantamento e do amor que ela produz, o homem se movimenta em busca do conhecimento das demais idéias.
Quanto à beleza já te disse - ela brilhava entre todas aquelas idéias puras e na nossa estada na terra ela ainda ofusca, com o seu brilho, todas as outras coisas. Á visão é ainda mais sutil de todos os nossos sentidos. Mas não poderia perceber a sabedoria. Despertaria amores veem entes se oferecesse uma imagem tão clara e distinta quanto aquelas que podíamos contemplar para além do céu. Somente a beleza tem essa ventura de ser a coisa mais perceptível e elevadora (Platão 1971:226).
O Platonismo é o pano de findo sobre o qual repousa a estética normativa vigente no Classicismo, que defende a existência de uma idéia ou essência do belo.
2.0. LEITURA COMPLEMENTAR
" O CAMINHO DA BELEZA PURA"
Para Platão, a felicidade e a virtude consistem na contemplação da beleza pura. Todo aquele que deseja atingir essa meta ideal, praticando acertadamente o amor, deve começar em sua mocidade pôr dirigir a atenção para os belos corpos, e antes de tudo, bem- conduzido pôr seu preceptor, deve amar um só corpo belo e, inspirado pôr ele, dar origem a belas palavras.' Mas, a seguir, deve observar que a beleza existente num determinado corpo é irmã da beleza que existe em outro e que, desde que se deve procurar a beleza da forma, seria grande mostra de insensatez não considerar como sendo uma única e mesma coisa a beleza que se encontra em todos os corpos. Quando estiver convencido dessa verdade amará todos os belos corpos, passando a desprezar e ter como coisa sem importância o violento amor que se encaminha unicamente para um só corpo. Em seguida, considerará a beleza das almas como muito mais amável do que a dos corpos, e destarte será conduzido pôr alguém que possua uma bela alma, embora localizada num corpo despido de encantos, e amará, zelando pôr sua felicidade e inspirando-lhe belos pensamentos, capazes de tomar os jovens melhores, O amante contemplará desse modo a beleza que há nos costumes e nas leis morais, notando que a beleza está relacionada com todas as coisas e considerará a beleza corpórea como pouco estimável.
Depois dessas considerações, é para os conhecimentos científicos que o guia dirigirá o seu discípulo a fim de que ele possa agora perceber a beleza que existe nesses conhecimentos. Lançando o seu olhar sobre a vasta região já ocupada pela beleza, deixando de ligar, como um lacaio a sua ternura a uma única beleza a de um jovem, a de um homem, a uma só ocupação o discípulo liberta-se dessa escravidão, deixa de ser esse ente miserável. Ao contrário, volver- se-á agora para o imenso oceano da beleza e, contemplando-o, dará a luz incansavelmente belos e esplêndidos discurso. E os pensamentos surgirão da inesgotável inspiração do saber; e assim será até que o seu espírito fortificado e enriquecido alcance a compreensão de uma ciência única que é a beleza, de que te vou falar! Procura compreender dando-me a máxima atenção de que és capaz.
Quando um homem foi assim conduzido até esta altura da arte amorosa, e viu as coisas belas em gradação regular; quando atingiu corretamente a instituições amorosa, esse homem, caro Sócrates, verá bruscamente cena beleza, de uma natureza maravilhosa, aquela que era justamente a razão de ser de todos os seus trabalhos anteriores. Verá um que, em primeiro lugar, é eterno, que não nasce nem morre, que não aumenta nem diminui, que alem disso não é em parte belo e em pane feio, agora belo e depois frio, belo em comparação com isto e frio em comparação com aquilo, belo aqui e feio acolá, belo para alguns e frio para outros. Conhecerá a beleza que não se apresenta como rosto ou como mãos ou qualquer outra coisa corporal, nem como palavra, nem como ciência, nem como coisa alguma que exista em outra, como pôr exemplo num ser vivo ou na terra ou no céu. Beleza, ao contrário, que existe em si mesma e pôr si mesma, sempre idêntica, e da qual participam todas as demais coisas belas. Essas coisas belas individuais, que participam da beleza suprema, ora nascem, ora morrem; mas essa beleza jamais aumenta ou diminui, nem sofre alteração de qualquer espécie.
Quando, das belezas inferiores nos elevamos através de uma bem-entendida pedagogia amorosa, até a beleza suprem a e perfeita, que começamos então a vislumbrar, chegamos quase ao Jim, pois na estrada reta do amor, quer a sigamos sozinhos quer nela sejamos guiados pôr outrem, cumpre sempre subir usando desses belos objetos visíveis como degraus de uma escada: de um para dois, de dois para todos os belos corpos, dos belos corpos para as belas ocupações, destas aos belos conhecimentos até que, de ciência em ciência, se eleve pôr fim o espírito à ciência das ciências, que nada mais é do que o conhecimento da Beleza em si!.
Se alguma coisa dá valor à vida, caro Sócrates - prosseguiu a estrangeira vinda de Mantinéia , essa é a contemplação da Beleza Absoluta. Se aí chegares um dia, uma vez que seja, nunca mais considerarás belos o ouro, as vestimentas magníficas e mesmo as belas jovens, a quem tanto admirais agora, tu e muitos outros, a ponto de estardes dispostos, para ver vossos amados e viver sempre junto deles, se possível fosse, a deixar de beber o comer, animados unicamente pela paixão da sua contemplação, pelo anseio de estar sempre ao seu lado.
Que devemos pensar de um homem ao qual tivesse sido dado contemplar a Beleza Pura, simples sem mistura, a beleza não revestida de carne, de cores, e de várias outras coisas mortais e sem valor, mas a Beleza Divina! Achas que não teria valor a vida daquele que elevasse seu olhar par ela e a contemplasse, e com ela vivesse em comunicação? Não te parece que vendo assim adequadamente o belo, esse homem seria o único a poder criar, não sobras de virtude, mas a verdadeira virtude, uma vez que se encontra em contato com a verdade? Ora, para aquele que em se cria e alimenta a verdadeira virtude e que vão os favores e o amor dos deuses - e, se é dado ao homem tomar-se imortal, ninguém mais do que esse o consegue! ".
Platão, Banquete. I Diálogos 1. Rio de Janeiro: Ediouro, 1971. p.l 73-5
A CONCEPÇÃO ARISTOTÉLICA  DA BELEZA E DA ARTE
A POÉTICA
Aristóteles estuda especifi­camente o tema da arte na Poéti­ca, que, na realidade, é apenas o fragmento de um estudo muito mais abrangente sobre os gêne­ros literários.
O conceito de poética, para os gregos, deriva do verbo poéin, que significa originalmente "fa­zer", "fabricar", e indica a realiza­ção de uma obra exterior ao su­jeito que a produz. Nesse sentido se distingue de outro fazer, o da praxis, cuja ação é imanente ao sujeito (como no caso da ética e da política).
Da Poética conhecemos apenas a parte dedicada à aná­lise da tragédia. Dessa análise, duas ideias devem ser destaca­das por sua importância e in­fluência em toda a reflexão sobre a arte desenvolvida no Ocidente:.
• a arte é uma imitação (mímesis) da natureza;
                      • a arte é um meio de puri­ficação (catharsis) dos senti­mentos
BELAS-ARTES E ARTES UTILITÁRIAS
Encontramos com Aristóte­les, pela primeira vez, a distinção entre belas-artes - ou artes imi­tativas - e artes utilitárias. Tal distinção, no contexto cultural da Grécia antiga, devia soar no míni­mo estranha: todos os objetos de uso diário deveriam ser "também belos, e os exemplares que nos restam, expostos nos museus de todo o mundo, atestam a impor­tância atribuída à beleza, tão in­dispensável quanto a utilidade do objeto.
Na Metafísica Aristóteles ~avia considerado o sabre pura­mente teórico especulativo superior ao saber prático, ~exatamente por não estar submetido a nenhum objetivo exterior ao pró­prio saber. Pelo mesmo motivo, na Poética, as artes imitativas são consideradas superiores às artes utilitárias. Para conseguir entender corretamente o que é a arte é indispensável, segundo Aristóteles, a distinção dessas duas formas, pois cada uma deIas obedece a uma finalidade di­ferente. Ora, conhecer a finalida­de a que se destina um objeto é condição indispensável para a sua compreensão.
Portanto, se existem duas finalidades diferentes para a arte, cada uma delas determinará um sentido diferente à atividade artís­tica, e não devem por isso ser confundidas.
A ARTE COMO IMITAÇÃO DA NATUREZA
A definição da arte como uma imitação da natureza não é original em Aristóteles. Platão já a definira assim, e parece mesmo que essa era a compreensão usual da arte na Grécia. Por ser também um princípio motor que leva uma forma a manifestar-se plenamente na matéria, a arte imita a natureza.
É importante observar que Aristóteles não define a arte como imitação (ou figuração) dos entes naturais, mas da própria natureza.
Como foi visto no contexto
da Metafísica e da Física, a natu­reza é um princípio motor, um princípio de criação que leva a forma a manifestar-se plenamen­te na matéria na qual se realiza. O mesmo faz o artista quando imprime à matéria a forma determi­nada por sua arte. São múltiplos os exemplos em que Aristóteles se refere à arte e ao artista para explicar o que é a natureza, como ela age e se manifesta. A nature­za é retratada como uma espécie de artista inconsciente da obra que produz.
Na Poética nós o vemos retomar a mesma conexão entre a natureza e a arte, mas numa perspectiva invertida, uma vez que Aristóteles, aqui, está interes­sado na compreensão da arte e não da natureza.
No caso das artes utilitá­rias, a arte completa e corrige a natureza onde esta falha. Um exemplo é o arquiteto que cons­trói o abrigo para o homem "imi­tando" abrigos fornecidos primiti­vamente pela própria natureza, ou o médico que atua para res­taurar a saúde onde ela foi perdi­da. Ao fazer isso, no entanto, o artista (ou artesão) segue as indi­cações e a direção apontadas pela própria natureza.
As belas-artes - ou artes imitativas -, analisadas a partir da tragédia, não imitam os obje­tos naturais nem visam corrigir Ou completar a natureza. Não são artes figurativas, assim como n são utilitárias. O que a tragédia imita e reproduz no espaço delimitado do palco, e durante um tempo estabelecido, são os costumes, caracteres ou qualidades morais (ethos), os sentimentos e paixões que se apoderam dos homens e os dominam (pathos), e as ações dirigidas pela vontade (praxis). Ela imita, enfim, ri próprio drama humano. Esse é o tema central da tragédia grega. A des­crição do ambiente físico ou natu­ral só aparece na condição de ce­nário onde se desenrola o drama.
A arte, tal como a ciência, visa a verdade; mas não a verda­de abstrata e teórica das defini­ções científicas, e sim aquela que se manifesta a partir de situações concretas onde o universal da tra­gédia humana se deixa retratar na individualidade de um destino pessoal.
Aristóteles não identifica a imitação com a reprodução figu­rativa. Isso pode ser comprovado quando diz que, de todas as ar­tes, a que "imita" com mais fideli­dade o caráter e as emoções é a dança. Imitar, no caso, está mais relacionado com manifestar, ex­pressar, do que reproduzir de for­ma figurada.
A ARTE COMO PURIFICAÇÃO
Platão, na sua República, havia condenado a tragédia, as sim como várias outras formas de arte, alegando que excitavam as paixões, causando uma inquieta­ção contrária ao equilíbrio do in­divíduo, capaz de afastá-Io da se­rena contemplação das verdades eternas ..
Já Aristóteles, ao contrário, não considera conveniente repri­mir ou extinguir no homem a par­te emotiva da alma. O equilíbrio rompido pela manifestação das paixões deve ser reencontrado a partir do momento em que esses sentimentos possam se manifes­tar de forma controlada.
Representando o drama com todo o choque de sentimen­tos e paixões, sofrimentos, espe­ranças e ações no espaço delimi­tado pelo palco, a tragédia permi­te que o espectador, identificando-se com os personagens, deixe fluir nele esses mesmos sentimentos (em especial a piedade e o temor), sem deixar-se, por outro lado, do­minar por eles. A tragédia opera assim uma purificação ou purga­ção (catharsis) das emoções. Essa é, segundo o filósofo, uma das suas principais finalidades.
Através da arte o mulher lida com as forças irracionais ou sobrenaturais que o ameaçam, sem entregar-se a elas. Aquilo que não se deixa verbalizar nem expressar de forma racional e objetiva é vivenciado e pode fluir, colocando-se assim diante do ho­mem e permitindo-lhe conhecer e lidar com esses sentimentos sem nenhum risco. Vivemos, através do personagem, o drama da es­colha; sofremos a ameaça do castigo divino; presenciamos a morte e o sofrimento compartilha­dos sem que nenhum desses sentimentos nos domine inteira­mente e nos perturbe.
A ordem rompida pela ação dramática se recompõe inabalável e eterna para além do palco e da ação descrita. A erupção do caos e da paixão que introduzem a de­sordem é permitida dentro do es­paço e do tempo que lhe são con­cedidos pela ação dramática. Des­sa forma, por meio da arte, o ho­mem domina as forças que, no cotidiano, o ameaçam e oprimem.
A arte do poeta permite que o universal se manifeste na sensível, fazendo apelo à imagi­nação e à sensibilidade, e combi­na, num paradoxo, o inesperado com o inevitável.
Tocando a emoção e libe­rando-a, a arte trágica leva o ho­mem a recuperar sua tranquilidade. Essa seria a origem do prazer estético. Claro está que, para produzi-lo, é preciso que o especta­dor seja levado a identificar-se com os sentimentos manifestos pelos personagens; mas é preci­so também que esses sentimen­tos se manifestem de forma gran­diosa, não mascarados nem mis­turados aos pequenos problemas e preocupações do cotidiano dos homens comuns.
A tragédia retrata o drama da existência humana, mas o faz com tal grandiosidade que o es­pectador, ao identificar-se e reco­nhecer-se nos personagens por meio de emoção, se sinta, ele mesmo, engrandecido por partici­par da espécie humana.
CONCLUSÃO
Os outros livros da Poética, anunciados logo no inicio da obra, e que tratariam da comédia e dos ditirambos, foram perdidos. Mas o que restou da obra de Aris­tóteles é, até hoje, peça funda­mental para o estudo da estética. Ela acabou por tornar-se tão imor­tal quanto a tragédia grega, que ainda comove os homens.