domingo, 13 de setembro de 2015

TEXTO BASE PARA AVALIAÇÃO ORAL ( O MITO HOJE E O QUE É O MITO)

O MITO HOJE
A consciência humana, antes do advento da escrita?, permanece ingênua, não crítica, A nova forma de compreensão do mundo dessacraliza o pensamento e a ação, isto é, retira dele o caráter de sobrenaturalidade, fazendo surgir a filosofia , a ciência, a técnica, Perguntamos então: o desenvolvimento do pensamento reflexivo decretou a morte da consciência míticas?
Auguste Comte, filosofo francês de século XIX e fundador do positivismo, responde pela afirmativa: ao explicar a evolução da humanidade, define a maturidade do espírito humano pelo abandono de todas as formas míticas e religiosas.
Ao criticar o mito e exaltar a ciência, contraditoriamente o positivismo faz nascer o mito do cientificismo, ou seja a crença na ciência como única forma de saber possível, de onde surgem os mitos do progresso, da objetividade, e da neutralidade científica.
Além disso, o positivismo mostra-se reducionista, empobrecendo as possibilidades de abordagens do mundo, porque a ciência não é a única Interpretação válida do real nem é suficiente, já que o mito é uma forma fundamental do viver humano. O mito é o ponto de partida para a compreensão do ser . Em outras palavras, tudo o que pensamos e queremos se situa inicialmente no horizonte da imaginação, nos pressupostos míticos, cujo sentido existencial serve de base para todo trabalho posterior da razão.
Como o mito é a nossa primeira leitura do mundo, o advento de outras interpretações da realidade não exclui o fato de ele ser raiz da inteligibilidade. A  função fabuladora persiste não só nos contos populares, no folclore, como também na vida diária , quando proferimos certas palavras  ricas de ressonância  mítica: como casa, lar, amor, pai, mãe, paz , liberdade, morte, cuja definição objetiva não escota os significados  que ultrapassam os limites da própria subjetividades. Essas  palavras nos remetem a valores , arquetípicos, modelos universais que existem na natureza, inconsciente e primitiva de todos nós. Não é por acaso , os psicanalistas aproveitam a riqueza do mito e descobrem nele as raízes do desejo humano. Por exemplo, apedra angular da psicanálise se encontra na interpretação feita por Freud do mito de Édipo.
O mesmo sucede com personalidades como artista, políticos, esportistas que os meios de comunicação se incubem de transformar em imagens exemplares, e que no imaginário das pessoas, representam todo tipo de anseios, sucesso , poder, liderança, atração sexual , etc. Por exemplo, na década de 1950 o ator James Dean expressa o mito da juventude transviada e Marilyn Monroe um mito sexual, posteriormente outros modelos surgem e desaparecem, conforme as expectativas que que predominam em cada período. Hoje em dia, com a rapidez dos meios de cominação, essas influências tornam-se  múltiplas e também mais fugazes.
Nas histórias em quadrinhos, o maniqueísmo exprime o arquétipo da luta entre o bem e o mal, enquanto a dupla personalidade do super-herói atinge em cheio o desejo da pessoa comum de superar a própria inexpressividade e impotência, tornando-se excepcional  e poderosa. Também os contos de fada remetem as crianças aos mitos universais do herói em luta contra as forças do mal, apaziguando os temores infantis.
No campo da política, quando alguém diz que que o socialismo é um mito, pode estar dizendo que se trata de algo inatingível de uma mentira , de uma ilusão que não leva a lugar algum. Porém, outros verão positivamente o mito do socialismo como utopia, de uma mentira, de uma ilusão que não leva a lugar algum. Porém, outros verão positivamente o mito do socialismo como utopia, o lugar do “ainda não”, cuja força  mobiliza a construção daquilo que um dia poderá “vir – a – ser” . Até as mais racionais adesões a partidos políticos e a correntes de pensamento supõe esse pano de fundo, justificado e injustificáveis, em que nos move em direção a um valor que apaixona e que só posteriormente buscamos explicitar pela razão.
O nosso comportamento também é permeado de rituais , mesmo que secularizado, as comemorações de nascimento, casamento, aniversários, os festejos de ano novo, as festas de formatura , de debutantes ,trote de calouros lembram verdadeiros ritos de passagem, examinando as manifestações coletivas no cotidiano da vida urbana do brasileiro, descobrimos componentes míticos no carnaval e no futebol, ambos coo manifestações delirantes do imaginário nacional e da expansão de forças inconscientes.
O mito se expressa ainda sob formas negativas, tais como já nos referimos ao mito do cientificismo ou , em tempos mais difíceis, quando Hitler fez viver o mito da raça ariana , por ele considerada a raça pura , e desencadeou movimentos apaixonados de perseguição e genocídio de judeus e ciganos. A lista possível das conotações diversas que o mito assume não termina aqui. Apenas quisermos mostrar como um conceito tão amplo e rico não se escota numa só linha de interpretação.
CONCLUSÃO:  O mito não resulta, portanto  de delírio nem se reduz a simples mentira, mas faz parte de nossa vida cotidiana, como uma das formas impensáveis de existir o ser humano. Mito  razão se complementam mutuamente. No entanto, recuperado no cotidiano da vida contemporânea , o mito não se apresenta com a abrangência que se faz sentir entre as sociedades tribais. O aprimoramento da reflexão  que propicia o exercício da crítica racional, permite a rejeição dos mitos prejudiciais quando nos tomamos capazes de diferencia-los , legitimando alguns e negando aqueles que podem levar a desumanização.
                Para  Gusdorf, o mito propõe todos os valores  puros e impuros. Não é de a sua atribuição autorizar tudo o que sugere. Nossa época conheceu o horror do desencadeamento dos mitos do poder e da raça, quando seu fascínio se exercício sem controle. A sabedoria é um equilíbrio. O mito propõe mas cabe a consciência dispor  e foi através porque um racionalismo estreito demais fazia profissão de desprezar os mitos, que estes sem controle  tornaram-se loucos.
O QUE É O MITO

“O mito é uma primeira fala sobre o mundo, uma primeira atribuição de sentido ao mundo, sobre o qual a afetividade e o
a imaginação exercem grande papel, e cuja função principal não é explicar a realidade; mais acomodar o ser humano ao mundo”.
O mito, entre as sociedades tribais, é uma forma do ser humano se situar no mundo, isto é, de encontrar o seu lugar entre os de mais seres da natureza. É um modo ingênuo,fantasioso, anterior a toda reflexão, e não -crítico de estabelecer algumas verdades que não só explicam parte dos fenômenos naturais ou mesmo a construção cultural, mas que dão, também, as diretrizes da ação humana. Devemos  salientar, entretanto, que, não sendo teórica, a verdade do aflito não obedece a lógica nem da verdade empírica, nem da verdade científica. É verdade intuída, que não necessita de provas para ser aceita. Por essa razão, quando existem várias versões do mesmo mito, não nos devemos preocupar em estabelecer uma versão autêntica, pois é o conjunto dessas versões que constituem a sua realidade.

O mito nasce do desejo de entender o mundo, para afugentar o medo e a insegurança. O ser humano, à mercê das forças naturais, que são assustadoras, passa a emprestar qualidades emocionais. A coisas não são mais matéria morta, nem são independentes do sujeito que as percebe. Ao contrário, estão sempre impregnadas de qualidades e são boas ou más, amigas ou inimigas, familiares ou sobrenaturais, fascinantes e atraentes ou ameaçadoras e repelentes. Assim, o ser humano se move dentro de um mundo animado por forças que ele precisa agradar para que haja caça abundante, para que a terra seja fértil, para que a tribo ou o grupo seja protegido, para que as crianças nasçam e os mortos possam ir em paz.

O pensamento mítico está, então, muito ligado à magia, ao desejo, ao querer que as coisas aconteçam de um determinado modo. É a partir disso que se desenvolvem os rituais como meios de propiciar os acontecimentos desejados. O ritual é o mito tornado ação.

Os exemplos de rituais são inúmeros: já nas cavernas de Lascaux e Altamira, o homem do Paleolítico (1000 a 5000 a.C.) desenhava os animais, em estilo muito realista, e depois “atacava-os” com flechas, para garantir o êxito da caçada. Os ritos de nascimento e de morte é que dão ao recém-nascido um reconhecimento como ser vivo, pertencente a uma determinada sociedade, ou, ao defunto, a mudança de seu estatuto ontológico (de ser vivo a ser morto) e sua aceitação pela comunidade dos mortos. Outro exemplo é o da expulsão de uma comunidade: uma vez realizados os ritos, a pessoa expulsa não precisa sair da comunidade, pois todos os outros integrantes passarão a não vê-la, não ouvi-la, enfim, a agir como se ela não existisse ou não estivesse presente. Para a comunidade, terminado o ritual, a pessoa expulsa desapareceu simbolicamente, mesmo que continue de corpo presente. E essa exclusão social acaba, em geral, levando à morte.


2. Funções do mito

Além de acomodar e tranquilizar o ser humano diante de um mundo assustador, dando-lhe a confiança de que, através de suas ações mágicas, o que acontece no mundo natural de pende, em parte, dos seus atos, o mito também fixa modelos exemplares de todas as funções e atividades humanas.

O ritual é a repetição dos atos executa dos pelos deuses no início dos tempos e que devem ser imitados e repetidos para que as forças do bem e do mal sejam mantidas sob controle. Desse modo,o ritual”atualiza”,isto é, torna atual o acontecimento sagrado que teve lugar no passado mítico.



3. Característicos do mito

O mito nas sociedades tribais é sempre um mito coletivo. O grupo, cuja sobrevivência deve ser assegurada, existe antes do indivíduo e é só por meio dele que os sujeitos individuais se reconhecem como tais. Explicando melhor, o sujeito só tem consciência, só se conhece outros e do reconhecimento dos outros que ele se afirma. Por isso, pode ser expulso simbolicamente: no momento em que falta o reconhecimento dos outros integrantes do grupo, ele não se reconhece, não se encontra mais.

Outra característica do mito é o fato de ser sempre dogmático, isto é, apresentar-se como verdade que não precisa ser provada e que não admite contestação. A sua aceitação se dá, então, por meio da fé e da crença. E por não ser uma aceitação racional, o mito não pode ser provado nem questionado.

Dentro dessa perspectiva de coletivismo, a transgressão da norma, a não-obediência da regra afeta o transgressor e toda sua família ou comunidade. Assim é criado o tabu — a proibição — envolto em clima de temor e sobrenatural idade, cuja desobediência é extremamente grave. Só os ritos de purificação ou de “bode expiatório” ,nos quais o pecado é transferido para um animal, podem restaurar o equilíbrio da comunidade e evitar que o castigo dos deuses recaia sobre todos.


domingo, 30 de agosto de 2015



CENTRO EDUCACIONAL 06 – GAMA/DF
PROF° DENYS F. DA COSTA
DISCIPLINA : FILOSOFIA
ATIVIDADE 01  DE RECUPERAÇÃO

1. O HOMEM INDIVÍDUO E SENHOR DA NATUREZA

Com o final da Idade Média, marcado pelo início do Renascimento, há uma retomada do Humanismo. No terreno da reflexão ética, esse fato orientou uma nova concepção moral, centrada na autonomia humana. Nessa dinâmica, o jusnaturalismo fortaleceu essa tendência ao estabelecer a Igualdade natural entre os homens e reconhecer os direitos naturais individuais No Iluminismo, essa orientação fica ainda mais evidente, pois os filósofos passaram a defender que a moral deve ser fundamentada não mais em valores religiosos, mas em valores oriundos da compreensão acerca do que seja a condição humana.
A nova visão de homem, que nasce a partir da Renascença, está fortemente marcada pelo desejo de emancipação da esfera religiosa e eclesial. Esse projeto de emancipação se faz presente em praticamente todos os âmbitos. Em conformidade com esse ideal, rompe-se com qualquer ideia de dependência ou existência alienada, O objetivo é assumir-se como sujeito e senhor de seu próprio destino.
A Filosofia moderna, em continuidade com o humanismo renascentista, reconhece e afirma o poder da razão humana em tornar-se consciente de si mesma. Por isso, declara que todo homem tem igualmente o direito ao pensamento e à verdade, racionalmente fundados. Assim, nasce o princípio da individualidade como subjetividade livre e chamada à autodeterminação.
O antropocentrismo moderno aborda o mundo natural como um objeto de manipulação, um recurso disponível ao infinito poder da razão humana, poder de transformação, mediante a ciência e a técnica. Enquanto o humanismo renascentista, acentuando o papel da experiência e da razão, busca conhecer o mundo natural, o antropocentrismo moderno, ao fazer do homem senhor da natureza, subjuga as outras formas de vida ao senhorio humano.
Ao referirmo-nos à sociedade moderna como antropocêntrica, estamos dizendo que sua razão é uma razão técnico-científica, instrumental, na qual os outros seres estão colocados a serviço do homem. Assim, o homem é o senhor da natureza, senhor que deve reinar e subjugar a si todas as coisas. Tendo como pressuposto a inesgotabilidade dos recursos naturais, aliada à confiança nos ilimitados poderes da razão humana, nasce a ideia do progresso linear e infinito.
Assim, o contexto de um capitalismo em consolidação fortalece o espírito da luta pela afirmação dos direitos individuais, reconhecidos desde o jusnaturalismo renascentista. Contudo, em conformidade com a reflexão dos contratualistas, a natureza individualista do ser humano apresenta fortes dimensões antissociais. Em decorrência, com o objetivo de defender e garantir seus direitos individuais, os homens são capazes de criar Um pacto de não agressão, estabelecendo garantias para as liberdades e os direitos individuais.
Os caminhos e as estratégias construídos vão sinalizando para a consolidação do liberalismo, em suã radical luta contra o absolutismo e contra a intervenção do Estado nos negócios baseados na livre iniciativa. A consagração da propriedade privada como direito natural é um duro golpe contra o antigo regime. A partir da Modernidade, as teorias políticas liberais fazem do indivíduo a origem e o fim do poder político.
Dessa forma, uma das características fundamentais do individualismo moderno é fazer coincidir o interesse individual e o coletivo. O indivíduo age coletivamente para defender os seus interesses, O indivíduo é fim em si mesmo e a sociedade passa a ser organizada para o serviço da realização dos fins individuais. Em decorrência, a melhor forma de governo será a democracia liberal, e a melhor política será o “laissez faire, laissez passer, le monde va de lui-même”; ou seja, deixar acontecer, deixar passa; o mundo e as relações vão cuidando e aleitando as coisas. Por isso, as funções principais do Estado reduzem-se a maximizar a liberdade e as oportunidades individuais e manter a ordem e a lei, evitando, assim, conflitos e garantindo acordos.
GROSSARIO:JUSNATURALISMO: Direito natural (Latim ius naturali) ou jusnaturalismo é uma teoria que procura fundamentar a partir da razão prática uma crítica a fim de distinguir o que não é razoável na prática do que é razoável e, por conseguinte, o que é realmente importante considerar na prática em oposição ao que não o é.[1] Uma característica fundamental que explicita o que é a teoria do direito natural é o seu projeto. Ela não se propõe a uma descrição de assuntos humanos por meio de uma teoria; tampouco procura alcançar o patamar de ciência social descritiva. A teoria do direito natural tem como projeto avaliar as opções humanas com o propósito de agir de modo razoável e bem.[2] Isso é alcançado através da fundamentação de determinados princípios do Direito Natural que são considerados bens humanos evidentes em si mesmos.
CONTRATUALISMO: Contrato social (ou contratualismo) indica uma classe abrangente de teorias que tentam explicar os caminhos que levam as pessoas a formarem Estados e/ou manterem a ordem social. Essa noção de contrato traz implícito que as pessoas abrem mão de certos direitos para um governo ou outra autoridade a fim de obter as vantagens da ordem social. Nesse prisma, o contrato social seria um acordo entre os membros da sociedade, pelo qual reconhecem a autoridade, igualmente sobre todos, de um conjunto de regras, de um regime político ou de um governante.
O ponto inicial da maior parte dessas teorias é o exame da condição humana na ausência de qualquer ordem social estruturada, normalmente chamada de "estado de natureza". Nesse estado, as ações dos indivíduos estariam limitadas apenas por seu poder e sua consciência. Desse ponto em comum, os proponentes das teorias do contrato social tentam explicar, cada um a seu modo, como foi do interesse racional do indivíduo abdicar da liberdade que possuiria no estado de natureza para obter os benefícios da ordem política.
QUESTÕES:
01)   Em que medida o jusnaturalismo contribuiu para uma nova visão ?
02)   No 1° parágrafo o texto cita a condição humana. Assim leia o texto do seu livro ( pag 69 ) e elabore um conceito  sobre o que seria condição humana?
03)   Qual a nova visão do homem?
04)   Compare o antropocentrismo moderno com o humanismo.
05)   A partir da leitura do texto , comente a seguinte afirmação: “ O homem é o senhor da natureza”
06)   O direito individual vai na contramão de uma visão social, porém é necessário, na medida que fortalece o homem diante do Estado. Faça, um comentário a partir das idéias contidas no texto.
07)   Qual a principal característica do individualismo moderno?

08)   Faça um breve resumo crítico sobre o texto.  
ENTREGA ;11/09/2015














segunda-feira, 3 de novembro de 2014

TEXTO BASE PARA O ESTUDO DIRIGIDO 3º SÉRIE ( LIBERALISMO)

CENTRO EDUCACIONAL 06 – GAMA/DF
PROFº DENYS F. DA COSTA
DISCIPLINA : FILOSOFIA  -  3º   SÉRIE
TEXTO BASE PARA  ESTUDO DIRIGIDO
Conceito de liberalismo
Afinal, que ideias novas são essas?
Na linguagem comum costumamos chamar de liberal a pessoa tolerante e generosa, tanto no sentido de não controlar gastos como no sentido de não ser autoritária. Chamamos também de liberais os profissionais como médicos, dentistas, advogados quando trabalham por conta própria.
Aqui, no entanto, não nos interessam esses significados da palavra liberal, mas sim os que indicam o conjunto de ideias éticas, políticas e econômicas da burguesia, em oposição à visão de mundo da nobreza feudal.
A burguesia interessava separar Estado e sociedade, entendendo nesta última o conjunto das atividades particulares dos indivíduos, sobretudo as de natureza econômica. Essa separação reduziria igualmente a interferência do privado no público, já que o poder procurava outra fonte de legitimidade diferente da tradição e das linhagens de nobreza.
 Liberalismo: Três aspectos
O liberalismo pode ser entendido sob pelo menos três enfoques: o político, o ético e o econômico.
O liberalismo político constituiu-se contra o absolutismo real e buscou nas teorias contratualistas a legitimação do poder, que não mais se fundava no direito divino dos reis nem na tradição e herança, mas no consentimento dos cidadãos. Decorreu dessa maneira de pensar o aperfeiçoamento das instituições do voto e da representação, a autonomia dos poderes e a limitação do poder central.
O liberalismo ético supõe o prevalecimento do estado de direito, que rejeita o arbítrio, as prisões sem culpa formada, a tortura, as penas cruéis e estimula a tolerância para com as crenças religiosas; para tanto, defende os direitos individuais, como liberdade de pensamento, expressão e religião.
O liberalismo econômico opõe-se inicialmente à intervenção do poder do rei nos negócios, que se exercia por meio de procedimentos típicos da economia mercantilista, tais como a concessão de monopólios e privilégios. A economia liberal consolidou-se com o escocês Adam Smith (1723-1790) e o inglês David Ricardo (1772-1823), que defendiam a propriedade privada dos meios de produção e a economia de mercado baseada na livre iniciativa-e competição.
O liberalismo do século XVIII
O século XVIII destacou-se pelo conjunto de ideias do movimento conhecido como Ilustração, que se espalhou por toda a Europa. A explosão das “luzes” foi preparada nos séculos anteriores com o racionalismo cartesiano, a revolução científica e o processo de laicização da política e da moral. As esperanças depositadas na ciência e na técnica, instrumentos capazes de dominar a natureza, baseavam-se na convicção de que a razão é fonte de progresso material, intelectual e moral, o que leva à crença e à confiança na sua perfectibilidade.
A difusão das ideias iluministas na França foi facilitada pela ampla produção intelectual de intelectuais conhecidos como enciclopedistas. Entre eles, destacamos Montesquieu e Rousseau.
DO liberalismo inglês: o utilitarismo
No século XIX, a Inglaterra constituía o país mais poderoso do mundo, poiso império colonial britânico expandira-se pelos diversos continentes. Vivia-se o apogeu da Revolução Industrial, que criou uma nova ordem, essencialmente moderna, com novos parâmetros económicos e sociais.
O florescimento do capitalismo industrial prometia a era do conforto e do bem-estar. As discrepância entre riqueza e pobreza, entretanto, estavam de ser superadas. Esses fatores explicam as discussões a respeito de reforma social, entre os liberais e de revolução, entre os socialistas.
Foi nesse contexto que se desenvolveu a Teoria utilitarista, com a intenção de estender aquele benefícios a todas as pessoas. Seus principais representantes foram Jeremy Bentham e John Stuart MILL
Jeremy Bentham (1748-1832), na busca por um instrumento de renovação social, criticou as resoluções liberais que levam ao egoísmo e elaborou teoria do utilitarismo. Segundo o “princípio de utilidade’, o único critério para orientar o legislador é cria leis que promovam a felicidade para o maior número de cidadãos.
Para a igualdade ser favorecida, Bentham dize que deviam ser garantidas a subsistência, a abundância  e a segurança, assim como as eleições periódica o sufrágio livre e universal e a liberdade de contrato .
O liberalismo francês
Enquanto na Inglaterra e nos Estados Unidos instituições políticas e sociais  consolidavam os ideais liberais, a França enfrentou no século XIX experiências  difíceis e contraditórias, após a esperança de “liberdade, Igualdade e fraternidade”, representada pela Revolução Francesa:
• o governo jacobino, declaradamente ultrademocrático, radicalizou-se instalando o Terror;
• Napoleão Bonaparte foi coroado imperador;
• com Napoleão III, a França entrou no Segundo Império, distanciando-se cada vez mais dos ideais democráticos.
Era natural que alguns liberais conservadores temessem a tênue separação entre democracia e tirania.
 Hegel: a crítica ao contratualismo
Friedrich Hegel [1770-1831), filósofo alemão, acompanhou apaixonadamente os acontecimentos que marcaram um ponto de ruptura da história: a derrocada do mundo feudal e o fortalecimento da ordem burguesa. É essa a contradição dialética cuja resolução Hegel aponta como a tarefa da Razão.
Para compreendermos, porém, a crítica que Hegel fez às concepções liberais que o antecederam, é preciso nos reportarmos à sua concepção dialética, da qual resultou um novo conceito de história: o presente é retomado como resultado de longo e dramático processo; por isso, a história não é a simples acumulação e justaposição de fatos acontecidos no tempo, mas o fruto de verdadeiro engendramento, de um devir cujo motor interno é a contradição dialética.
 O Estado: síntese final
A concepção de Estado hegeliana nega a tese contratualistas vigente nos dois séculos anteriores porque o indivíduo não escolhe o Estado, mas é por ele constituído, Ou seja, não há como pensar o indivíduo em estado de natureza, porque ele é sempre um indivíduo social.
Segundo a concepção dialética hegeliana, o Estado sintetiza, numa realidade coletiva, a totalidade dos interesses contraditórios entre os indivíduos. Vejamos como ocorrem as contradições:
• a família é a síntese dos interesses contraditórios entre seus membros;
• a sociedade civil é a síntese que supera as divergências entre as diversas famílias Hegel foi o primeiro a usar a expressão “sociedade civil” dando-lhe um sentido novo, que corresponde à esfera intermediária entre a família e o Estado; a sociedade civil é o lugar das atividades econômicas e, portanto, nela prevalecem os interesses privados, sempre antagônicos entre si; por isso é o lugar das diferenças sociais entre ricos e pobres e da rivalidade dos profissionais entre si; conforme o movimento dialético, as esferas da família e da sociedade civil não devem ser entendidas como formas anteriores ou exteriores ao Estado, pois na verdade só existem e se desenvolvem no Estado;
• o Estado representa a unidade final, a síntese mais perfeita que supera as contradições existentes entre o privado e o público e que põem em perigo a coletividade; no Estado, cada um tem a clara consciência de agir em busca do bem coletivo, sendo por excelência a esfera dos interesses públicos e universais.
A importância do Estado na filosofia política de Hegel provocou interpretações diversas, inclusive a de ter sido ele um teórico do absolutismo prussiano, concepção que, em última análise ,justificaria o totalitarismo. Vários filósofos se insurgiram contra essa simplificação deformadora do pensamento hegeliano, desde o próprio Marx até Eric Weil, no século XX.
Hegel exerceu grande influência na política posterior, e seus seguidores dividiram-se em dois grupos opostos, denominados direita e esquerda hegeliana. Entre esses últimos encontram-se Marx e Engels.
 As contradições do século XIX
Em comparação com as teorias liberais dos dois séculos anteriores, os pensadores do século XIX representam um avanço em direção às ideias de liberdade e igualdade.
No entanto, nesse período ainda persisti inúmeras contradições: nem sempre a implantação  das aspirações liberais conciliou os interesses econômicos aos aspectos éticos e intelectuais permaneceram sem solução questões econômicas e sociais que afligiam a crescente massa de operários nos grandes centros da Europa — pobreza jornada de trabalho de 14 a 16 horas, mão de  obra mal remunerada de mulheres e crianças.
Além disso, a expansão do capitalismo estimulou ideias imperialistas que justificaram a colonização por essa razão, os países europeus “democráticos não abriram mão do controle econômico e político  sobre suas colônias. O próprio John Stuart Mill argumentava que a ideia de governo democrático ajustava apenas aos hábitos dos povos avançados sobretudo dos brancos.


 O liberalismo contemporâneo
O século XX viveu a contradição dos ideais  liberdade em confronto com duas guerras mundiais, o horror dos campos de concentração nazistas stalinistas, a explosão das bombas atômicas no Japão os atos terroristas das mais diversas orientações líticas e religiosas. A crescente globalização acelerou os movimentos migratórios dos países pobres mais ricos, acirrando os sentimentos de xenofobia.
Vejamos como a teoria liberal assumiu posições diferentes, conforme sua orientação se inclinasse mais para a defesa das liberdades ou para a igualdade de oportunidades.
 Liberalismo social
Um dos ideais do liberalismo clássico é o Ideia do não intervencionismo, que deixa o mercado livre para sua auto regulação. Trata-se do Estado minimalista no qual prevalecem as leis do livre mercado .No entanto, no século XX surgiram tendências que podemos chamar de liberalismo de esquerdo, socialismo liberal ou liberal-socialismo, o que pode parece- uma extravagância pela ambiguidade de sentido ao unir conceitos contraditórios, inconciliáveis: o livre mercado e o controle estatal da economia.
As extremas desigualdades sociais, no entanto levaram alguns a admitir que a ênfase na economia livre deveria ser atenuada, a fim de possibilitar igualdade de oportunidades e auxiliar no crescimento da individualidade.

Acontecimentos históricos apressaram a reformulação dos princípios do liberalismo. Após a quebra da Bolsa de Nova York em 1929, a década de 1930 foi marcada pela depressão econômica: falências. desemprego e inflação geraram graves tensões sociais. A crise de modelo capitalista desencadeou a experiência totalitária na Alemanha e na Itália . Já a Inglaterra e os Estados  Unidos  buscaram soluções diferentes que pudessem evitar tanto o perigo do nazismo como a tentação do comunismo. As novas medidas  tomadas encaminharam o liberalismo social em que é revisto o papel do Estado na economia.

TEXTO BASE PARA AVALIAÇÃO ORAL 3º SÉRIE

CENTRO EDUCACIONAL 06 – GAMA/DF
PROFº DENYS F. DA COSTA
DISCIPLINA : FILOSOFIA  -  3º SÉRIE
TEXTO BASE PARA AVALIAÇÃO ORAL
O ESTADO COMO CONTRATO SOCIAL
Uma das novas ideias políticas surgidas no século XVII foi que a sociedade e sua estruturação política, o Estado, são criações humanas, e não fenômenos da própria natureza, como pensava Aristóteles. Haveria, de acordo com essa ideia, um “contrato” para organizar a sociedade.
O pacto e a instituição da sociedade
Segundo a noção de contrato social, a sociedade foi instituída pelos seres humanos por meio de um pacto coletivo — um contrato —, com um contrato - , no qual os indivíduos convivem, O contrato estabelece regras e leis, assim como um poder que organiza a coletividade e atua como árbitro nas disputas entre seus membros. As filosofias baseadas nessa teia ficaram conhecidas como contratualismo ou jusnaturalismo.
O primeiro grande filósofo contratualista foi Thomas Hobbes. Preocupado com a situação política da Inglaterra, agitada pela disputa entre os defensores da monarquia e os que desejavam instituir uma república, ele escreveu duas obras políticas: Sobre o cidadão (1642) e Leviatã (1651). Nelas, Hobbes defende um governo monárquico e absolutista, e em meio a sua argumentação desenvolve a ideia de contrato social.
Hobbes se afasta de Aristóteles, para quem os seres humanos seriam naturalmente sociais. Segundo Hobbes, a natureza humana é individualista e egoísta, e os seres humanos não viveram sempre em comunidade. Se resolveram viver em agrupamentos sociais organizados, foi simplesmente para garantir a sobrevivência. Antes dessa organização, segundo parte dos contratualistas, os seres humanos viviam em um “estado de natureza”, ou seja, de modo primitivo. No caso de Hobbes, esse estado é apresentado como uma guerra constante de todos contra todos, o que o levou a dizer que “o homem é o lobo do homem”.
Cada um queria impor sua vontade, e todos desejavam acumular Bens. Como não existia uma regulamentação sobre o direito de propriedade, vencia o mais forte, seja no sentido físico ou intelectual. Ninguém se sentia seguro, era preciso estar sempre em vigília. Portanto, ainda segundo os filósofos contratualistas, os indivíduos se cansaram de viver dessa forma.
Segundo Hobbes, o pacto social foi feito para selar a paz entre as pessoas, garantindo a cada indivíduo o direito de viver e acumular bens, sem o medo constante de ser roubado ou assassinado. E o pacto seria justamente a abdicação da liberdade natural de cada um em nome da segurança de todos. Os indivíduos se reúnem e pactuam que dali por diante viverão todos sob as ordens de um único chefe, que tem a responsabilidade de garantir a segurança de todos. Para isso ele cria leis que regulamentam a vida naquela comunidade e servirão para arbitrar disputas entre membros do grupo.
De acordo com Hobbes, antes do contrato social não há povo, há uma multidão, que não é um corpo político, pois não tem uma unidade. É o pacto coletivo que transforma a multidão em povo, em uma unidade política em torno de um projeto comum: a garantia da sobrevivência e do direito de propriedade. Para esse filósofo, uma vez feito o contrato os indivíduos já não podem desistir dele, exceto se o soberano já não for capaz de garantir a segurança e a vida de todos, pois foi em nome disso que se realizou o pacto.
As ideias políticas de Hobbes estão presentes nas monarquias absolutistas europeias dos séculos XVII e XVIII. Entretanto, a situação política da Inglaterra e depois de toda a Europa tendeu para uma política liberal, que contribuiria para formar monarquias constitucionais, Estados republicanos e democráticos. No plano do pensamento político, sua ideia de contrato social teve vida mais longa e serviu de matriz para outras teorias políticas.
O pacto e o direito à propriedade
Assim como Hobbes, o médico, filósofo e político John Locke se apoiou nas ideias de estado de natureza e contrato social para construir sua filosofia política. Locke defendia uma monarquia parlamentarista, na qual o poder estaria no Parlamento, nos representantes da população, e não,o na realeza. Esse sistema foi instaurado com a Revolução de 1689, sendo John Locke um dos que contribuíram com sua fundamentação teórica.
Como você já estudou, embora tenha sido influenciado por Descartes, Locke discordava da existência de ideias inatas. Discordava igualmente da existência de um poder inato ou de origem divina. Para ele, todo poder vem do povo. A teoria de Hobbes ajudou-o a desenvolver essa ideia, mas, contrariamente a Hobbes, Locke não via nesse estado uma guerra permanente. Segundo Locke, o fato de os homens viverem na mais absoluta liberdade não implica que vivessem sem leis. No estado de natureza os homens seriam governados pela lei natural da razão, sendo seu princípio básico a preservação da vida. Portanto, as pessoas não agrediam nem matavam indistintamente, apenas para impor sua vontade ou tomar a propriedade de alguém.
De acordo com Locke, todo indivíduo já nasce proprietário de seu corpo e de sua capacidade de trabalho. Tudo aquilo que produzir, retirando da natureza ou a transformando, por meio de seu próprio trabalho, será de sua propriedade, uma vez que empenhou seu corpo e sua vida nessa tarefa. Portanto, em seu estado natural os seres humanos, além de gozarem da plena e absoluta liberdade, podem ter acesso a propriedades. O que os teria levado, então, a abandonar esse estado, instituindo a sociedade civil?
Com o tempo, o produto do trabalho humano e o acesso à propriedade se tornaram mais complexos. Em determinado momento, passou a ser necessário arbitrar sobre os direitos, devido às disputas que começaram a surgir entre os indivíduos. Se todos são iguais, quem é o verdadeiro proprietário dos produtos do trabalho? Se todos são iguais, quem pode arbitrar as questões para fazer justiça?
Os indivíduos reuniram-se em comunidade, diz Locke, com o objetivo de facilitar o gozo do direito de propriedade que, mesmo possível, era incerto e inseguro quando se vivia em estado natural, Para o filósofo, portanto, o principal objetivo do contrato social é a preservação do direito de propriedade.
O pacto entre os indivíduos institui a sociedade civil e o Estado. Para Hobbes, o contrato é um pacto de submissão que visa a instaurar uma situação contrária àquela que vigorava no estado de natureza, preservando a segurança das vidas humanas; já para Locke o contrato se configura como um pacto de consentimento em que os indivíduos, longe de se submeterem todos a um poder comum, concordam em instituir eis que preservem e garantam tudo aquilo que eles já desfrutavam no estado de natureza. O contrato social é, para Locke, a garantia dos direitos naturais, e não a criação de outros direitos.
Locke exemplifica com um tipo bem corriqueiro de associação civil: o casamento. No casamento, dois indivíduos consentem na união, e só por isso ela é possível. O mesmo se aplica ao Estado.
Sendo fruto do consentimento de todos, a instituição de uma sociedade política não significa uma renúncia à liberdade individual, mas sim a instauração de uma nova forma de liberdade, a liberdade civil, que não se contrapõe à liberdade natural, mas a preserva e a amplia. Os direitos naturais se tornam políticos.
Para Locke, há um pacto de instituição da sociedade e posteriormente a sociedade, assim instituída, define as formas de governo. Como se observa, o contrato social, segundo Locke, não é a transferência do poder de cada um para um soberano. A soberania (o poder) pertence à totalidade do povo. Assim, é esse povo, como corpo político, que pode indicar quem assumirá as funções de administração e de governo. E todo aquele que ocupar esse tipo de função o fará em nome do povo, podendo ser destituído pelo povo quando não corresponder às expectativas.
Locke fala na necessidade de separar e articular os poderes legislativo (que elabora as leis), executivo (que as coloca em prática) e judiciário (que arbitra a prática das leis), para evitar a concentração de poder em uma única pessoa ou grupo. Essa teoria foi consolidada no século seguinte por Montesquieu se tornou elemento fundamental do sistema democrático moderno.
O contrato social como expressão da vontade geral
Talvez você já tenha ouvido a frase: “O homem nasceu livre, e em toda parte vive acorrentado”. Ela abre o livro Do contrato social, de Jean-Jacques Rousseau. Enquanto Hobbes concebia o estado natural como guerra e o estado social como fonte de segurança individual, Rousseau considerava o estado natural como fonte da liberdade e da igualdade. A sociedade política era a fonte da guerra, pois instaurava a desigualdade entre os homens. Nascemos livres na natureza, mas nos aprisionamos pelas convenções sociais, O problema político, para Rousseau, poderia ser enunciado da seguinte maneira: como estabelecer um pacto social que seja garantia da liberdade, e não escravização dos indivíduos?
Em seu Discurso sobre a origem e os fundamentos da desigualdade entre os homens, Rousseau afirma que o estado de natureza foi a idade ouro”, quando os homens eram todos livres e iguais entre si, autos-suficiente e isolados uns dos outros, vivendo em paz e harmonia. Isso fez  com que se atribuísse a Rousseau a ideia do “bom selvagem” — a crença de que o homem é naturalmente bom, mas se corrompe pela vida em sociedade —, embora ele nunca tenha usado essa expressão. Seu contemporâneo e crítico Voltaire afirmava que, ao ler os textos de Rousseau, ficava-se com vontade de andar de quatro, como os bichos tamanho seu encantamento pelo estado de natureza.
Para Rousseau, a origem da propriedade é também a origem da verdadeira desigualdade. As diferenças naturais não devem ser levadas em conta, segundo ele, mas apenas a desigualdade social, a única desigualdade de fato. A origem da propriedade é também a origem da sociedade, porém não de direito; Rousseau considera que a fundação histórica da sociedade civil está no ato do primeiro ser humano que cercou um terreno e afirmou: “Isto é meu!”, tendo encontrado aceitação por parte de seus semelhantes.
Com a propriedade, inicia-se o processo de acumulação de bens. Surgem  as desigualdades, a escravidão, a ganância e a violência. Rousseau considera que o primeiro contrato social que instituiu o Estado não resulta da ação de todos os indivíduos, como pensavam Locke e Hobbes, mas sim da ação dos indivíduos ricos coagindo os mais pobres, na tentativa de garantir para si as benesses da propriedade, e não tinha por isso uma legitimidade jurídica.

Desse modo, Rousseau antecipa a noção de Estado como instrumento de classe que Karl Marx enunciou no século seguinte. Entretanto, Rousseau  não considera a instituição política como essencialmente nociva destinada a defender interesses individuais; a sociedade não contrária ao estado natural, como afirmava Hobbes. O Estado poderia ser organizado de forma a preservar os direitos naturais e a igualdade entre os indivíduos .

segunda-feira, 29 de setembro de 2014

CENTRO EDUCACIONAL 06 – GAMA /DF
PROF: DENYS FERREIRA DA COSTA
DISCIPLINA: FILOSOFIA
TEXTO BASE PARA O ESTUDO DIRIGIDO      (3º SÉRIE)
ALIENAÇÃO
A PALAVRA ALIENÇÃO VEM DO Latim alienare, “tornar algo alheio a alguém, isto é , tornar algo pertencente a outro” 
Hoje  esse termo é usado em diferentes contextos  com significações distintas :              
Em Direito — designa a transferência da propriedade de um bem a outra pessoa. Nesse sentido, costuma-se dizer que “os bens do devedor foram alienados”;

Em psicologia — refere-se ao estado patológico do indivíduo que se tornou alheio a si próprio, sentindo-se como um estranho, sem contato consigo mesmo ou com o meio social em que vive;
• na linguagem filosófica contemporânea — corresponde ao processo pelo qual os atos de uma pessoa são dirigidos ou influenciados por outros e se transformam em uma força estranha colocada em posição superior e contrária a quem a produziu. Nesta acepção, a palavra deve muito de seu uso a Karl Marx.
O termo alienação foi utilizado inicialmente por Hegel para designar o processo pelo qual os indivíduos colocam suas potencialidades nos objetos por eles criados. Significaria, assim, uma exteriorização da criatividade humana, de sua capacidade de construir obras no mundo. Nesse sentido, o mundo da cultura seria uma alienação do espírito humano, uma criação do indivíduo, que nela se reconheceria.
Diferentemente de Hegel, Marx identificou dois momentos distintos nesse processo de exteriorização da criatividade:
objetivação — primeiro momento, que se refere especificamente à capacidade da pessoa de se objetivar, de se exteriorizar nos objetos e nas coisas que cria, o que é algo próprio do saber-
-fazer humano;
alienação — segundo momento, aquele em que o indivíduo, principalmente no capitalismo, após transferir suas potencialidades para seus produtos, deixa de identificá-los como obra sua, Os produtos “não pertencem” mais a quem os produziu. Com isso, são “estranhos” a ele, seja no plano psicológico, econômico ou social.
Na sociedade contemporânea, o processo de alienação atinge múltiplos campos da vida humana, Impregnando as relações das pessoas com o trabalho, o consumo, o lazer, seus semelhantes e consigo mesmas. Vejamos alguns aspectos dessas relações alienadas, seguindo, em linhas gerais, a análise do psicanalista alemão Erich Fromm [1900-1980] em Psicanálise da sociedade contemporânea p. 128-147).
Trabalho alienado
Nas sociedades atuais observa-se que a produção econômica transformou-se no objetivo imposto às pessoas, isto é, não são as pessoas o objetivo da produção, mas a produção em si. Nas palavras do filósofo francês contemporâneo Luc Eerry (1951)
[...] a economia moderna funciona como a seleção natural em Darwin: de acordo com uma lógica de competição globalizada, uma empresa que não progrida todos os dias é uma empresa simplesmente destinada à morte. Mas o progresso não tem outro fim além de si mesmo, ele não visa a nada além de se manter no páreo com outros concorrentes. ÍFERRY, Aprender a viver — filosofia para os novos tempos, p. 247.]
Essa mentalidade desenvolveu-se desde o século XVII], quando teve início a industrialização da economia. Esse processo significou não apenas a introdução de máquinas na produção econômica, mas também estabeleceu novas formas de organizar o trabalho seguindo a Lógica de lucro, de tal maneira que as relações sociais passaram a ser regidas pela economia, e não o contrário. Essa tendência acentuou-se a partir do século XIX, quando o trabalho na maioria das indústrias tornou-se cada vez mais rotineiro, mecânico, automatizado e especializado, subdividido em múltiplas operações. Os empresários industriais visavam, com isso, economizar tempo e aumentara produtividade.
Como exemplificou o economista escocês Adam Smith 1723-17901, na fabricação de alfinetes, um operário puxava o arame, outro o endireitava, um terceiro o cortava, um quarto o afiava, um quinto o esmerilhava na outra extremidade para a colocação da cabeça, um sexto colocava a cabeça e um sétimo dava o polimento final.
Essa forma de organização do trabalho em linhas de operação e montagem) foi, posteriormente, aperfeiçoada pelo engenheiro e economista estadunidense Frederick Taylor [1856-1915], cujo método ficou conhecido como taylorismo. A principal consequência do taylorismo é que a fragmentação do trabalho conduz a uma fragmentação do saber, pois o trabalhador perde a noção de conjunto do processo produtivo.
Essa forma de organização do trabalho — que conduz ao trabalho alienado — ainda pode ser observada em muitas empresas, onde o funcionário se restringe ao cumprimento de ordens relativas à qualidade e à quantidade da produção. Sempre repetindo as mesmas operações mecânicas, ele produz bens estranhos à sua pessoa, a seus desejos e suas necessidades.
Além disso, ao executar a rotina. do trabalho alienado, o trabalhador submete-se a um sistema  que, em grande parte, não Lhe permite desfrutar financeiramente dos benefícios de sua própria atividade, pois a meta é produzir para satisfazer as necessidades do mercado e não propriamente do trabalhador Fabricam-se, por exemplo, coisas maravilhosas para uma elite econômica, enquanto aqueles que as produzem mantêm-se modesta ou miseravelmente. Produz-se “inteligência”, mas também a estupidez e o bitolamento nos trabalhadores.
Enfim, o trabalho alienado costuma ser marcado pelo desprazer, pelo embrutecimento e pela exploração do trabalhador Vejamos como Marx, em Manuscritos econômico-filosóficos, descreveu esse processo:
Primeiramente, o trabalho alienado se apresenta como algo externo ao trabalhador, algo que não faz parte de sua personalidade. Assim, o trabalhador não se realiza em seu trabalho, mas nega-se a si mesmo. Permanece no Local de trabalho com uma sensação de sofrimento em vez de bem-estar, com um sentimento de bloqueio de suas energias físicas e mentais que provoca cansaço físico e depressão. Nessa situação, o trabalhador sé se sente feliz em seus dias de folga enquanto no trabalho permanece aborrecido. Seu trabalho não é voluntário, mas imposto e forçado.
O caráter alienado desse trabalho é facilmente atestado pelo fato de ser evitado como uma praga; só é realizado à base de imposição. Afinal, o trabalho alienado é um trabalho de sacrifício, de mortificação. E um trabalho que não pertence ao trabalhador mas sim à outra pessoa que dirige a produção. [Primeiro manuscrito, XXIII. o • Mercado de personalidades
Atingido  pela alienação, o ser humano perde contato com seu eu genuíno, com sua individualidade. Transformado em mercadoria, como observou Fromm, o trabalhador sente-se como uma coisa” que precisa alcançar sucesso no mercado de personalidades” — sucesso financeiro, profissional, intelectual, social, sexual, político, esportivo etc, O tipo de sucesso perseguido depende do mercado no qual a pessoa quer “vender” sua personalidade.
Como o homem moderno se sente ao mesmo tempo como o vendedor e a mercadoria a ser vendida no mercado, sua autoestima depende de condições que escapam a seu controle. Se ele tiver sucesso, será “valioso”; se não, imprestável. O grau de insegurança daí resultante dificilmente poderá ser exagerado. [FROMM, Análise do homem, p. 73.]
Dominado por essa orientação mercantil alienante, conforme definição de Fromm, o indivíduo não mais se identifica com o que é, sabe ou faz. Para ele, não conta sua realização íntima e pessoal apenas o sucesso em vender socialmente suas qualidades.
Tanto suas torças quanto o que elas criam se afastam, tornam-se algo diferente de si, algo para os outros julgarem e usarem; assim, sua sensação de identidade torna-se tão frágil quanto sua auto- estima, sendo constituída do total de papéis que ele pode desempenhar: “Eu sou como você quer que eu seja”. (Análise do homem, p. 74.]
As relações sociais também ficam seriamente comprometidas. Cada pessoa vê a outra segundo critérios e valores definidos pelo ‘mercado de personalidades”. O outro passa a valer também como um objeto, uma mercadoria.
Um dos princípios que orientam as relações alienadas nas sociedades contemporâneas pode ser traduzido nestas palavras: ‘Não se envolva com a vida interior de ninguém”. Esse não envolvimento pode Levar a situações extremas de ausência de solidariedade social.
Consumo alienado
Como podemos definir o termo consumo? Consumir significa utilizar, gastar, dar fim a algo, para alcançar determinado objetivo O ser humano necessita de objetos exteriores para a sua sobrevivência e realização. Por isso, os indivíduos produzem, em sociedade, os objetos para seu consumo.
E o que seria consumo alienado? Antes de refletirmos sobre esse conceito, consideremos o brutal abismo socioeconômico que separa ricos e pobres no mundo inteiro.
Os 2,5 bilhões de indivíduos mais pobres — ou seja, 40% da população mundial — detêm 5% da renda global, ao passo que os 10% mais ricos controlam ’54%. Um a cada dois indivíduos vive com menos de 2 dólares por dia (patamar de pobreza e um a cada cinco, com menos de 1 dólar por dia (patamar de pobreza absoluta]. Essa informação nos mostra que, enquanto boa parte da humanidade enfrenta o drama agudo da fome, da falta de moradia, do desamparo à saúde e à educação, sem o mínimo necessário para sobreviver, uma minoria pode se dar o luxo de consumir quase tudo e esbanjar o supérfluo.
‘E aí que entra, como veremos, o conceito de consumo alienado, fenômeno que ocorre principalmente entre a parcela da população de bom poder aquisitivo, já que não tem muito sentido falarmos em consumo alienado entre a multidão de famintos, esmagada pela miséria.
Relação produção-consumo
Karl Marx observou que produção é ao mesmo tempo consumo, pois quando o trabalhador produz algo, além de consumir matéria-prima e os próprios instrumentos de produção, que se desgastam ao serem utilizados, ele também consome suas forças vitais nesse trabalho.
Por outro lado, completa Marx, consumo é também produção, pois os homens se produzem através do consumo. Isso se verifica de forma mais imediata na nutrição, processo vital pelo qual consumimos alimentos para ‘produzir” nosso corpo. Porém, o consumo nos produz não apenas no plano físico, mas também nos aspectos intelectual e emocional, como ser total.
Há, portanto, uma relação dialética entre consumo e produção. Isso fica ainda mais evidente quando se considera que a produção cria não só bens materiais e não materiais, mas também o consumidor para esses bens. Ou seja, quando se produz algo, é preciso que alguém consuma essa produção. Temos, então, a tríade produção-consumo-consumidor. Por isso, a publicidade (divulgação de produtos nas diversas mídias, como jornal, TV, internet, volantes etc.] é elemento fundamental das sociedades capitalistas, uma vez que é por meio dela que se impulsiona nos indivíduos a necessidade de consumir mercadorias. E aí começa uma ‘roda-viva”: a produção abre a possibilidade do consumo, o consumo cria a necessidade de mais produção, e assim por diante. Essa dupla criação de necessidades (a produção criando o consumo e o consumo criando a produção] gera a ‘reprodução” do sistema capitalista. quer dizer que o circuito produção-consumo não visa atender prioritariamente às necessidades das pessoas, mas sim às necessidades internas do sistema capitalista, em busca permanente de lucratividade, o que leva à mercantilização de todas as coisas.
Nesse sistema, como aponta o sociólogo contemporâneo Immanuel Wallerstein (1930-] em O capitalismo histórico, há algo de absurdo na “lógica capitalista”:
1...] acumula-se capital a fim de se acumular mais capital. Os capitalistas são como camundongos numa roda, correndo sempre mais depressa a fim de correrem ainda mais depressa. Nesse processo, algumas pessoas sem dúvida vivem bem, mas outras vivem miseravelmente, e mesmo as que vivem bem pagam um preço por isso. (p. 34.]
De forma aparentemente contraditória, esses dois aspectos — a exclusão da maior parte das pessoas da possibilidade de consumir e a permanente busca por mais lucro — estão entrelaçados a tal ponto que o filósofo francês Jean Baudrillard (1929-2007] considera que a lógica do consumo no mundo capitalista se baseia exatamente na impossibilidade de que todos consumam.
De acordo com sua análise, o consumo funciona como uma forma de afirmar a diferença de status entre os indivíduos. Veja um exemplo simples:
o fato de que alguém possua um automóvel de luxo só tem sentido se poucos indivíduos puderem tê-lo. Assim, o objeto adquirido funciona como um signo de status. Nas palavras do filósofo, ‘o prazer de mudar de vestuário, de objetos, de carro, vem sancionar psicologicamente constrangimentos de diferenciação social e de prestígio” (Para uma crítica da economia política do signo, p, 38].
A propaganda trata de assegurar essa distinção ao associar marcas e grifes a comportamentos e padrões inacessíveis à maioria da população e, mais que isso, impossíveis de ser alcançados em escala mundial, devido ao impacto que isso significaria em termos do meio ambiente. Essa impossibilidade é, evidentemente, escamoteada, pois não interessa que as pessoas tenham essa informação,

 Neoflismo
Nesse tipo de consumo alienado, movido pelo desejo do consumidor de sentir-se uma ‘exceção” em meio à multidão, ocorre algo como se a posse de um objeto satisfizesse a perda da própria identidade.
As empresas e seus departamentos de marketing sabem disso e se empenham em colocar no mercado produtos que se sucedem com uma rapidez impressionante, os quais são consumidos zelos indivíduos como forma de compensar essa 1 satisfação que sentem em relação a si próprios. tso se traduz na busca ansiosa por adquirir o que se deseja, ignorando-se a possibilidade de desejar c que já se adquiriu
Em outras palavras, o consumidor alienado age como se a felicidade consistisse apenas em uma cestão de poder sobre as coisas, ignorando o prazer obtido com aquilo que verdadeiramente ama. Como afirmou o filósofo alemão Max Horkheimer 11885_1973], “quanto mais intensa é a preocupação do indivíduo com o poder sobre as coisas, mais as coisas o dominarão, mais lhe faltarão os traços individuais genuínos” Eclipse da razão, p. 1411.
Assim, no consumo alienado não existe uma relação direta e real entre o consumidor e o verdadeiro prazer da coisa conquistada, pois o consumo transforma-se em ato obsessivo movido pelo apetite de novidade e de distinção social. E esse desesperado neofilismo [amor obsessivo pelas novidades] afeta praticamente todas as relações de que o ser humano é capaz com o mundo exterior.
Evidentemente, o neofilismo desenfreado corresponde aos interesses dos grandes produtores econômicos. Produzir objetos que logo se tornam obsoletos é um princípio fundamental da economia capitalista.
Escapar a essa armadilha do consumo não é um problema a ser resolvido apenas pela consciência e pela vontade individuais. E uma tarefa ampla que envolve a transformação dos valores dominantes em toda a sociedade. A indústria cultural e de diversão vende peças de teatro, filmes, livros, shows, jornais e revistas como qualquer outra mercadoria. E o consumidor alienado compra seu lazer da mesma maneira como compra sua pasta dental ou seu xampu. Consome os “filmes da moda” e frequenta os ‘lugares badalados”, sem um envolvimento autêntico com o que faz.
Agindo desse modo, muitos se esforçam e até pensam que estão se divertindo, querem acreditar que estão se divertindo. No entanto, “através da máscara da alegria se esconde uma crescente incapacidade para o verdadeiro prazer” [Lobsenz, citado em LOWEN, Prazer, p. 13-14].
Isso quer dizer que a lógica capitalista afeta até mesmo a relação do indivíduo com as obras de arte. Reduzidas ao nível de mercadorias, elas passam a obedecer à lei da oferta e da procura. Tornam-se puros “negócios” fabricados pela indústria cultural, expressão criada por I-Horkheimer e Theodor Adorno [1906-19691, pensadores da Escola de Frankfurt.

Assim, o que era fruto da espontaneidade criativa do sujeito — a arte — transforma-se em produção padronizada de objetos de consumo com vistas à obtenção de lucros econômicos.